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A escritora Nélida Piñon abre sua casa e fala sobre não formar uma família

"Eu me dei conta de que tinha espírito aventureiro forte demais para ter filhos. E produção independente, no meu tempo, Deus me livre!", conta

CARAS Digital Publicado em 26/11/2014, às 16h29 - Atualizado em 10/05/2019, às 11h20

Nélida Piñon - Cadu Pilotto
Nélida Piñon - Cadu Pilotto

O amplo apartamento da escritora Nélida Piñon (77) tem vista exuberante para a Lagoa, cartão ­postal carioca. Mas não é a paisagem que se sobressai. As paredes totalmente tomadas por quadros, objetos de arte, fotos e lembranças realçam sua brilhante trajetória: primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras, entre 1996 e 1997, e vencedora de consagrados prêmios como o Príncipe de Astúrias, na Espanha. “Há história por trás de tudo. E histórias são o fundamento da humanidade. Cada objeto aqui tem significado. Desde pequena conservo o hábito de guardar coisas. Hoje, tenho um arquivo impressionante”, orgulha-­se. No sofá da sala, onde pousam almofadas trazidas da Turquia, a carioca fala de sua intimidade e do lançamento do livro A Camisa do Marido.

- Como é o novo livro?
– Havia deixado os contos de lado em função de romances, ensaios, memórias. Voltei e gostei muito. Fui obedecendo a uma temática que me seduzia: a família. As neuroses, benesses, punções eróticas, tudo está na família, que é transmissora do conhecimento, a base dos saberes humanos. São contos rústicos, quase que passados na terra. Tem uma brutalidade, que é a naturalidade excessiva de viver. E isso me atrai.

– A família parece ter um sentido forte na sua vida, não?
– Sim, na de todos nós. Mesmo os que a recusam, são vítimas de uma recusa superficial, porque não somos outra coisa senão produto do que mãe e pai injetaram no imaginário. Meus pais me permitiram sonhar e fizeram com que eu desenvolvesse um potencial criativo extraordinário ao me levarem ao teatro, à ópera, ao darem livros, almanaques, gibis. O Tico-Tico era minha paixão!

– Então, a decisão de não formar a sua própria família tem a ver com o quê?
– Com a liberdade. Eu me dei conta de que tinha espírito aventureiro forte demais para ter filhos. E produção independente, no meu tempo, Deus me livre! Tinha que ter um pai e eu não aguentaria um o tempo todo. Você não pode brincar de maternidade, saindo pela vida para ser escritora. Eu viajo o mundo. Foi a vida que escolhi. No regrets, sem ressentimentos.

– A chegada da cadela Susy despertou seu lado maternal?

– Nada! É um amor diferente, mas minha agenda é condicionada a ela e a Gravetinho, meu outro cachorro. Eles são carinhosos e eu adoro carinho. Sou do tipo que fala tocando. Quando nova, ia à ópera, mas adorava um botequim. Quando pude frequentar, entrava e pedia sanduíche de pernil com guaraná. De repente, claro, estava conversando com todos em volta, homens. No meio do papo, acabava tocando, mas nunca meu gesto foi interpretado como atrevido ou inadequado. Só quando tinha que ser. Sou feminista e me sinto bem em ambiente masculino. Nunca fui desrespeitada.

– O que você tem de popular?
– Converso na rua e todos compreendem o que digo. Não faço concessão barata, supondo que o outro é tão ignorante, que não vai me entender. Isso é desrespeito. Gosto de samba, já dei meus passinhos de tango e aprecio filme de faroeste e programa culinário.

– Tem habilidade doméstica?
– Eu cozinho. Adoro descascar batata! Tem uns cortadores finos, moderníssimos, que já domino. Faço bacalhau, polvo, mocotó, rabada, língua. Adoro receber. Tenho quatro geladeiras, onde guardo vinhos, espumantes. Mas bebo pouco, porque quero a minha cabeça impecável.

– Nunca experimentou algo que alterasse a consciência?
– Nem pensar! Nunca precisei, minha cabecinha sempre foi uma explosão.  Até hoje é!