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Bebê / Maternidade real

Titi Müller reflete sobre criar um filho na pandemia: ''Privilégio poder gerar vida''

Maternidade na pandemia: a experiência de criar um bebê em isolamento social nas visões profissionais

Isabela Thurmann Publicado em 22/03/2021, às 12h49 - Atualizado às 13h04

Titi Muller fala sobre a criação de um bebê no isolamento - Reprodução/Instagram
Titi Muller fala sobre a criação de um bebê no isolamento - Reprodução/Instagram

O último ano, com certeza, ficará marcado pela pandemia do coronavírus. O mundo inteiro entrou em quarentena e teve que lidar com as consequências do isolamento social.

Mas, apesar de tudo que estava acontecendo lá fora, a vida não parou. Adultos continuaram trabalhando, crianças e adolescentes continuaram estudando e bebês continuaram nascendo.

Com isso em mente, a CARAS Digital decidiu conversar com Titi Müller, a apresentadora de 34 anos que deu à luz ao Benjamin, seu primeiro filho, durante esse período conturbado, mais especificamente, em 11 de junho de 2020.

A tarefa de ser uma mãe de primeira viagem já é assustadora para a maioria das mulheres. Porém, a gaúcha garante que estava mais tranquila. “Eu estava com as expectativas bem realistas. Eu acho que é bem importante, quem consegue planejar uma gravidez, que não é o caso de todas as mulheres, que mergulhe de cabeça mesmo nos estudos sobre amamentação, sobre o puerpério e sobre as descargas hormonais”, disse.

No bate-papo, ela admitiu que, o que ajudou bastante nesse quesito, é o fato de seu herdeiro com Tomás Bertoniser um bebê tranquilo. “Na verdade, eu só acho que não tá tão difícil quanto eu achei que poderia ser porque o Benjamin é uma criança muito maravilhosa. Ele passa o dia inteiro dando risada, ele é muito gostoso mesmo. Ele não é uma criança difícil”, pontuou.

“O maior desafio mesmo que a gente tá tendo aqui realmente é o sono. O sono dele ainda é muito ruim, ele acorda muitas vezes ainda por noite. Isso varia muito de bebê pra bebê e a gente tá tentando respeitar o tempo dele, mas tá difícil”, acrescentou a ruiva. 

Titi chegou a falar que, talvez, o sono desregulado do filho possa ter alguma relação com o isolamento, por conta da rotina diferente que levaria. “Agora com 9 meses pode ser que sim, porque a gente estaria fazendo uma rotina com mais estímulos externos, mais gente participando da nossa rede de apoio e ele teria mais colinhos. Mas, dentro do possível, eu consigo estimular bem ele aqui dentro do apartamento”, revelou, além de contar que ela estava levando o bebê no playground da casa de sua sogra e em um parque, tomando todos os cuidados necessários até em relação às outras crianças.

Para ela, a pandemia tornou a maternidade ainda mais desafiadora. “Viver por si só está muito mais desafiador”, começou dizendo. Em seguida, falou sobre a criação de filhos: “Principalmente na medida que eles vão precisando de mais contato social”.

A psicóloga Daniela Generoso, também opinou sobre os desafios dessa nova situação que muitas mães se encontram. “O contato que esse bebê deixa de ter com outras pessoas da família criando um super apego aos pais, dificultando o aprendizado emocional de segurança e apoio”, falou.

“Acredito que esse apoio inicial que os pais de primeira viagem precisam algumas vezes vai ser um obstáculo a ser superado, porém isso pode trazer mais cumplicidade ao casal. Situações de cansaço físico e mental serão dificuldades diárias”, acrescentou.

Dr. Clay Brites, que é pediatra, neurologista infantil e um dos fundadores do Instituto NeuroSaber, revelou que sua preocupação é mais voltada à saúde mental dos pais das crianças que nasceram durante esse período. “O que eu acho importante frisar é cuidar da saúde mental dos pais; porque dependendo de como estiver a saúde mental dos cuidadores, os cuidados a esse recém-nascido podem ficar inadequados. O recém-nascido em si não sai muito de casa mesmo. O importante é ficar de olho na saúde mental dos cuidadores, os quais devem estar bens, tranquilos, e o máximo possível equilibrados nas suas condutas, nas suas atitudes, para que conduza da melhor forma possível essa criança”, falou.

Apesar dos desafios já pontuados, também existe um certo lado bom na questão da quarentena. Na opinião da psicóloga, o "casal ficará mais próximos dividindo responsabilidades e tendo uma comunicação mais assertiva, o pai criará mais laços com seu filho(a) e juntos poderão criar memórias afetivas que vão auxiliar em processos que possam surgir com passar da vida”.

A esposa do guitarrista da banda Scalene acabou vivendo um pouco disso.“Uma das coisas boas da pandemia foi que o Tomás ficou aqui o tempo todo com a gente. O Benjamin com 10 dias, se não fosse a pandemia, o Tomás teria passado 20 dias fora em função do Festival CoMA  (que ele é dono), que acontece em Brasília. Eu estava super apreensiva com isso no começo da gravidez, e aí veio a pandemia e o festival não aconteceu e ele tá direto em casa. Isso realmente é muito bom”, admitiu Titi.

Tanto a mãe de Benjamin quanto o neurologista acham que essa situação toda não irá gerar sequelas nos bebês e, sim, nos pais. “Me preocupa mais as crianças maiores, me preocupa mais os cuidadores. Agora, o recém-nascido, não. Acredito que isso não vai levar a nenhuma sequela”, disse o profissional.

“Na faixa etária dele, especificamente, eu acredito que não porque simplesmente foi assim desde o início. Ele não estranha as pessoas de máscara porque desde que ele nasceu ele vê as pessoas com máscara. É totalmente diferente de todas as outras faixas etárias. Eu gosto de pensar que, por enquanto, ele não sofreu grandes consequências negativas da pandemia. Eu acho que a única coisa negativa mesmo é a tensão dos pais. Essa semana, por exemplo, teve um dia que eu coloquei ele pra dormir e eu tava chorando muito, de muita angústia, de muita revolta, de muita tristeza, de muito medo e isso com certeza passa pra ele”, chegou a revelar a apresentadora. 

Já Daniela apontou que pode existir uma consequência também nos bebês. “Acredito que todos nós ficaremos com algumas sequelas diante desse cenário de insegurança que estamos vivendo, teremos quadros em que a mãe pode desenvolver crises de ansiedade ou depressão por talvez não se sentir suficiente. Quanto a criança dependendo do tempo que fique em isolamento ficará super apegada a mãe e terá dificuldades de criar outros vínculos”, comentou.

Müller, que passou pelo final da gravidez, pelo nascimento em si e pelos 9 primeiro meses do herdeiro já nessa situação, fez um comparativo entre as épocas e chegou a conclusão que não é mais fácil ou mais difícil, os desafios apenas são diferentes. “Eu odeio essa frase porque eu acho a coisa mais tiozão do mundo, mas: ‘é tipo videogame, cada fase vai ficando mais complexa’. Acho que cada fase tem as suas complexidades, o puerpério é uma avalanche, a única coisa que a gente quer é sobreviver mesmo. Dá muito medo, é muita incerteza, é muita insegurança, o bebê que só chora. É muito difícil tu amar tanto uma pessoa que só te responde com choro”, começou falando.

“Na medida que ele vai se desenvolvendo e aprendendo outros tipos de comunicação, outros tipos de vínculo, a gente vai sacando a personalidade dele, vai ficando mais fácil. Mas, ao mesmo tempo, vai ficando mais complexo, porque são mais coisas que vão entrando na jogada. A gente vai se acostumando, as coisas vão ajustando o ritmo então vai meio que entrando no automático”, prosseguiu.

Ela ainda ressalta que acredita que as coisas ainda irão continuar dessa maneira. “Os desafios sempre mudam. A cada fase é muito particular. Agora ele tá engatinhando por tudo, tá começando a querer caminhar já. É mais um desafio. A gente protegeu a casa inteira, parece que a casa vira um campo minado, não dá pra deixar 1 segundo que o mais improvável acontece. Ele está aprendendo a testar nossos limites e isso é difícil porque a gente tá começando a entender que a gente realmente precisa dar alguns limites seguros. Antes, era só acolhimento, colo. Criar filho não é só sobre isso, é saber contornar, saber dar as bordas que precisa. Porque se a gente não der, ele não vai ter”, concluiu a ruiva sobre o tópico.

E, Generoso acrescentou: “Temos sempre que manter a esperança e enquanto a solução ideal não chega precisamos aprender a lidar com o real, nenhum sofrimento dura para sempre. O aprendizado dos processos da vida exige que aprendamos a ressignificar”.

PARA AS MAMÃES QUE ESTÃO NESSA SITUAÇÃO

Titi Müller deixou uma dica especial, baseada em sua experiência, para as famílias que também estão criando um filho durante a pandemia ou que estão prestes fazê-lo.

“Eu passei pelo último trimestre inteiro da gestação na pandemia, eu fiquei literalmente os últimos três meses. O que eu desejo de verdade é força, é confiar na ciência, buscar profissionais que possam acolher ela nesse momento. Vai dar tudo certo. Tomando todos os cuidados que a gente já sabe que tem que tomar, vai dar tudo certo. Agora, principalmente nesses próximos meses que já bateu na nossa porta esse colapso total da saúde, é mais ainda: se manter resguardada em casa, tomar cuidado com visita, e olhar pra dentro”, começou sugerindo.

“Uma parada que foi muito positiva do meu último trimestre é que eu fiquei profundamente mergulhada dentro de mim e da nossa casa, eu preparei todo o ninho. Eu pintei o quarto do Benjamin inteiro, eu montei tudo sozinha porque eu não tinha segurança nem pra chamar uma pessoa pra instalar uma cortina aqui em casa. Então, eu e o Tomás a gente se virou aqui. Eu fiquei namorando o quartinho um tempão e me preparando pra essa chegada”, admitiu. 

Para concluir, ela não deixou de demonstrar o quanto seu filho está fazendo uma baita diferença em sua vida durante esse período complicado. “A vida acontece né? O mundo pode estar literalmente caindo pra fora da nossa janela, da nossa porta, mas é um privilégio muito grande poder gerar vida no meio disso tudo. Se não fosse o Benjamin eu não sei como estaria minha cabeça. Não tem um dia, desde que ele nasceu, que eu não dê uma gargalhada, que eu não me sinta muito feliz por ele estar aqui, mesmo com tudo que tá acontecendo, ele é o nosso solzinho. É muito privilégio poder cuidar dele e poder acompanhar o desenvolvimento dele”, disse a mãe-coruja.