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TV / EMOCIONANTE!

Há 20 anos, William Bonner quebrava o protocolo e chorava no 'Jornal Nacional'

Em 6 de agosto de 2003, William Bonner chorou ao vivo no Jornal Nacional ao dar a notícia da morte de uma pessoa próxima

William Bonner se emocionou ao ler carta ao vivo no Jornal Nacional há 20 anos - Reprodução: Acervo Globo
William Bonner se emocionou ao ler carta ao vivo no Jornal Nacional há 20 anos - Reprodução: Acervo Globo

Há 20 anos, quem estivesse com a televisão ligada na Rede Globo ficou surpreso ao ver uma cena inédita. Nos minutos finais do Jornal Nacional, William Bonner se emocionou e chorou enquanto dava uma notícia. O motivo da comoção do âncora do principal jornal da televisão brasileira foi o falecimento de Roberto Marinho.

No dia 6 de agosto de 2003, o dono do grupo Globo morreu aos 98 anos. O executivo ficou a frente da Globo de 1925 até o ano de sua morte. Diversos artistas, políticos e jornalistas se manifestaram em meio a perda de um dos principais nomes do jornalismo brasileiro. Entre as manifestações mais comoventes de luto, estavam momentos de silêncio em dois estádios de futebol, e ainda uma paralisação durante uma votação na Câmera dos Deputados, que na época debatia sobre a reforma da previdência.

O dia 7 de agosto no Jornal Nacional estava atípico, não só pelo falecimento de Roberto Marinho, mas porque a bancada não estava em sua formação clássica com Fátima Bernardes ao lado de Bonner. O jornalista Renato Machado foi escolhido para substituir a então esposa de Bonner na apresentação do jornal.

Homenagem ao vivo comoveu público

Nos cinco minutos finais do JN, William Bonner leu uma carta aberta assinada pelos filhos de Roberto Marinho: Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto. No texto emocionante, os três herdeiros comentavam sobre a perda do pai e as comoventes demonstrações de luto feitas Brasil a fora. “É a ampliação de um compromisso com o povo brasileiro”, descreveu Bonner antes de ler a carta em que lia-se:

Neste momento de extrema dor, a manifestação de respeito, carinho e admiração do povo brasileiro pela figura de nosso pai nos comoveu, nos consolou e nos emocionou. A imagem de dois estádios de futebol, logo após o anúncio de sua morte, com jogadores, árbitros, dirigentes e fundamentalmente o povo, prestando um minuto de silêncio, é uma cena que guardaremos para sempre em nossa memória. Da mesma forma, foi eloquente o minuto de silêncio que a Câmara dos Deputados também fez em homenagem a Roberto Marinho, interrompendo uma votação importante, envolvendo pontos de uma reforma tão polêmica como a da previdência. Também as palavras de sobre a sua importância, vindas de jornalistas, artistas, escritores, políticos, empresários, esportistas, gente do povo, nos tocaram profundamente”.

A carta lida por Bonner, que olhava diretamente para a câmera, ainda dizia: “Seremos eternamente gratos por estes gestos. Mas mais do que nos consolar, todas essas manifestações reforçaram em nós a convicção de que a morte de Roberto Marinho só aumenta a nossa responsabilidade. Porque deixam claro que o povo brasileiro reconhece espontaneamente, não somente a relevância de nosso pai para a vida do país, mas principalmente de sua obra. Uma obra que sempre se pautou pela defesa do patrimônio nacional, na cultura brasileira e dos valores mais caros ao Brasil. O povo brasileiro se vê em nossos jornais, rádios, televisão, internet, na Fundação Roberto Marinho. Porque somos brasileiros trabalhando para brasileiros”.

O texto que foi assinado pelos três herdeiros, e que dentre eles estava o atual diretor do grupo Globo João Roberto Marinho, prosseguia dizendo o orgulho que os filhos têm do legado do pai e citando os diversos produtos e serviços criados e comandados por Roberto.

Tudo isso demostra que a obra de nosso pai é uma contribuição decisiva para a manutenção da nossa cultura e para a defesa dos valores democráticos do nosso povo. A vida de Roberto Marinho foi sem dúvida vitoriosa, e esta é a imagem que o povo brasileiro guarda dele. Mas ele foi vitorioso também porque soube superar uma a uma, as crises, algumas graves que se puseram em seu caminho. Em nosso longo convívio, aprendemos com ele a buscar sempre a verdade, a fazer tudo com a qualidade que o nosso povo exige e com a ética de que não podem abrir mão os homens de bem”.

E com ele aprendemos como manter no rumo, as empresas vitoriosas que fazem parte das organizações Globo. Obstáculos virão, mas como nosso pai, saberemos superá-los. Porque também com ele, aprendemos a lição mais importante. A obra de Roberto Marinho partiu de um ideal dele, mas só pode ser concretizada por conta de uma aliança entre jornalistas, artistas, escritores, profissionais da cultura e o povo brasileiro. Não somente preservar, mas ampliar essa obra é o nosso compromisso”.

E ela será ampliada, não apenas porque esse é o nosso desejo, mas porque pretendemos manter intacta esta aliança que a originou. Esta é a nossa intenção, esta é a nossa determinação...”. Neste momento, Bonner olha para baixo e solta um longo suspiro.

O âncora do jornal que vai ao ar para todo Brasil às 20:30h, após o suspiro ficou em silêncio e depois de um tempo completou a frase com sua voz embargada: “Este é o nosso compromisso”. Após um tempo em silêncio, Bonner leva a mão nos lábios e anuncia aos espectadores: “Eu vou concluir”.

Assinam a carta Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto Marinho. Até amanhã...", disse Bonner em sua última frase no jornal daquela noite. A câmera corta para Renato Machado que também se despede do público, e, como é de praxe em situações como esta, os créditos do jornal subiram sem música.

Porém, ainda na despedida do JN, uma imagem forte pode ser vista pelos espectadores: todos os membros da redação do jornal, que ficam atrás da bancada dos âncoras, estavam de pé em silêncio, em homenagem a Roberto. Enquanto a câmera se aproximava da equipe, a imagem do programa ficava em preto e branco. Os últimos sete segundos do Jornal foram de um vídeo, também em preto e branco,  de Roberto Marinho.

A morte de Roberto Marinho

Era uma quarta-feira, 6 de agosto, quando Roberto Marinho foi levado ao hospital às pressas. Havia sofrido uma embolia pulmonar e uma parada cardíaca. Com isso, João Roberto ligou a tarde para a equipe de Jornalismo da Globo para informar sobre o estado de saúde de seu pai, que era grave.

Como é de praxe em redações jornalísticas, sempre quando uma figura importante está em um estado grave de saúde, um obituário é feito. Porém, a redação do Jornal Nacional optou por não fazer isso. O atual diretor de Jornalismo da Globo, Ali Kamel comentou com o site "Memória Globo": "Era extremamente constrangedor para a redação preparar o obituário do dono da empresa: a operação requer muita pesquisa em texto e imagens, e obviamente a informação poderia chegar aos filhos ou ao próprio, o que seria no mínimo, desagradável". 

A fim de evitar maiores constrangimentos, uma reunião privada foi marcada para se discutir e realizar o obituário de Roberto Marinho. Estavam presentes o então diretor da Central Globo de Jornalismo Carlos Henrique Schroder, Ali Kamel, William Bonner, Pedro Bial, a chefe de redação do Globo Repórter Meg Cunha, o diretor de Operações Fernando Guimarães e a supervisora do Arquivo de Imagens do Centro de Documentação, Vera Albuquerque. O grupo começou a fazer o trabalho em sigilo. 

"Não dava tempo, não podia fazer muita espuma, não podia chamar atenção, a notícia não podia vazar de maneira alguma. Eu lembro que botamos um pano preto na ilha de edição, um aquário, para que ninguém visse que estávamos trabalhando com o material do Roberto Marinho", relembrou Pedro Bial para o Memória Globo. 

Algumas horas depois, às 16h, João Roberto voltou a ligar para a Globo. Seu pai havia piorado, e um coágulo precisava ser dissolvido por meio de medicação. Pouco tempo depois, às 18h, João voltou a ligar e eram más notícias novamente. A medicação não funcionara e Roberto seria operado ainda naquele dia. 

Quando o Jornal Nacional foi ao ar, ainda no dia 6, Roberto estava sendo preparado para passar pela cirurgia. Após o JN, às 21:30h, o empresário foi operado, mas não resistiu. Quem deu a notícia em primeira mão no Plantão foi a jornalista Ana Paula Padrão. A redação que até então fazia o obituário em sigilo trabalhou às pressas para realizar um obituário no Jornal da Globo, e durante a madrugada para o Bom Dia Brasil.