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Cinema / Oscar 2019

'Roma' pode coroar o México pela quinta vez em Los Angeles enfrentando preconceitos

O sucesso latino é motivo de comemoração, mas também gera incômodo entre os fãs do clássico cinema hollywoodiano

Baárbara Martinez Publicado em 24/02/2019, às 07h30 - Atualizado em 12/03/2019, às 15h16

Cena do filme 'Roma' - Divulgação / Netflix
Cena do filme 'Roma' - Divulgação / Netflix

O prêmio de melhor direção no Oscar virou um passeio mexicano desde que Alejandro González-Iñárritu, Guillermo del Toro e Alfonso Cuarón passaram a ser figurinhas marcadas na concorrência da categoria. 

Os amigos cineastas levaram as estatuetas de melhor direção em quatro edições dos últimos cinco anos. Os triunfos começaram em 2014 quando Cuarón foi premiado com a obra Gravidade, que na teoria é um longa-metragem mais americano que latino.

Em 2015 e 2016 Iñárritu foi coroado por Birdman - A Inesperada Virtude da Ignorância e O Regresso, películaque deu a Leonardo DiCaprio o tão desejado e aguardado prêmio de melhor ator. Antes diss,o o diretor já havia chamado a atenção com Filhos da Esperança, de 2006, que chegou a concorrer a três prêmios na festa, de melhor fotografia, roteiro adaptado e edição.

A paradinha ocorreu no evento de de 2017 com Damien Chazelle sendo premiado por La La Land.

Já Del Toro levou na última edição com A Forma da Água, mesmo não sendo um novo Labirinto do Fauno, que ganhou o Oscar como melhor filme estrangeiro, onde recebeu inúmeros elogios. 

Neste ano, o cineasta defende com unhas e dentes o longa que conta parte da sua história, Roma, lançado pela Netflix. 

CAIU NAS GRAÇAS DO DIGITAL

No Globo de Ouro, após a produção levar como melhor filme de língua estrangeira e melhor direção, ele foi questionado por um jornalista sobre a suposta “morte do cinema independente”.

Nervoso, o diretor defendeu a empresa de assinatura, que colocou sua arte a disposição do público e a deixou mais popular. “Minha pergunta para você é: quantos cinemas você acha que exibiriam um filme mexicano, em preto e branco, falado em espanhol e mixteco, que é um drama sem grandes estrelas? Quão grande você acha que seria um lançamento convencional?”, esbravejou.

“Não foi um lançamento estrelar… o filme estreou um mês atrás e ainda está rolando. Isso é raro para uma obra estrangeira. Acho que é injusto você perguntar isso”.

“Simplesmente acho que as discussões entre a Netflix e as outras plataformas em geral deveriam acabar”, continuou. “Aqueles caras, das plataformas e dos cinemas, deveriam se unir e perceberem que estão machucando o cinema com suas brigas”, finalizou Cuarón.

O vídeo com o discurso de Alfonso pedindo paz entre o cinema novo e o antigo viralizou nas redes sociais.

UMA REALIDADE COMUM

Entre filmes de super heróis e histórias de rockstar, uma obra tecnicamente simples chamou a atenção da academia e concorre em 10 categorias como melhor fotografia, melhor roteiro original, melhor filme estrangeiro, melhor atriz, para a estreante Yalitza Aparicio, melhor atriz coadjuvante com Marina de Tavira, e também de melhor filme, feito único, pois nunca uma produção em um idioma diferente do inglês venceu o maior prêmio da noite.

A ideia de contar a história de vida de uma empregada doméstica de Roma, bairro da cidade do México, colhe os frutos de ser uma entre os líderes da disputa.

DESIGUALDADE SOCIAL

A personagem de Cleo (Yalitza) é a visão principal do longa e entrega uma crítica sobre a condição social que abriga não só o país em questão, mas sim toda a América Latina. A obra retrata as condições de mulheres que trabalham em residências, com acúmulo de funções e sem horário para início e término de expediente.

FEMINISMO NAS CENAS

*** ATENÇÃO! CONTÉM SPOILLER

Conforme a história mostra a realidade da personagem, Cleo sai com Fermín (Jorge Antonio Guerrero), de quem acaba engravidando. Ao contar a novidade para o rapaz, ela é abandonada em uma sala de cinema e mais adiante da história, ameaçada fisicamente por pedir explicações pelo seu sumiço.

Em uma das cenas mais representativas nesse sentido, sua patroa Sofia descobre que seu marido o traiu com outra mulher e chegando em sua residência embriagada, ela bate o veículo nas paredes da garagem e ao encontrar sua funcionária na porta da sala diz: “Digam o que disserem, nós mulheres estamos sempre sozinhas”.

A FORÇA DA MULHER LATINA POR TRÁS DOS BASTIDORES

A produtora Gabriela Rodriguez já fez história como a primeira latina a ser indicada para melhor filme - como produtora. Se a película sobre a infância de Cuarón ganhar, ela será oficialmente a primeira premiada.

"A verdade é que, como ser humano, nem mesmo como mulher ou latina, isso é incrível", disse Rodriguez ao The Washington Post. "Para mim é uma imensa satisfação que as pessoas que fazem o que eu faço, pessoas da indústria que eu respeito e admiro, reconheçam o incrível trabalho que fizemos".

PRECONCEITO

"Não é atriz", "não tem vocação nem futuro na área" e tem a "sorte das feias". Essas são apenas algumas das críticas feitas à  Aparicio.

Engana-se quem acha que isso é o pensamento das redes sociais ou história fictícia. As frases ditas saíram da boca de diretores, atrizes e apresentadores de televisão inconformados com o sucesso da protagonista.

Tudo isso ocorreu porque ela possui origem indígena e sem experiência no cinema.

O QUE ELES POSSUEM?

Por que Hollywood caiu nas graças dos latinos nos últimos anos? Talvez essa pergunta esteja na mente dos diretores concorrentes há anos.

Não há dúvida numa questão: Iñárritu, Alfonso e del Toro sabem como nos sensibilizarem e nos tornarem mais humanos. Seria então o mexicano o homem mais emotivo do planeta? Seja qual for a fórmula, tem funcionado e incomodado.