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Nossas escolhas afetivas podem sim ser estranhas, até surpreendentes

Paulo Sternick Publicado em 08/05/2008, às 19h55

Paulo Sternick
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Costumamos ter gratidão, até saudade, das relações que ocorrem ao longo da vida, quando elas, ainda hoje, são compatíveis com nosso sentimento e razão. Reconhecemos sua legitimidade. Mas quem já não se perguntou, olhando seu passado, sobre como pôde ligar-se em certa pessoa? Quem não se espantou com a sucessão de relações que teve, a ponto de confessar: "Eu já me meti em cada uma". Não é tão raro se ouvir essa frase de quem tem autocrítica sobre o incrível deslizamento amoroso de sua libido, capaz de fazer "baldeações" nas mais bizarras estações. As escolhas amorosas dizem muito sobre nós mesmos e olhar para elas de forma reflexiva ajuda a conhecer nosso lado emocional. Uma coisa é o sucesso profissional, ou o bom senso racional; outra inteiramente diferente é a dimensão afetiva: nem sempre os dois lados são compatíveis e homogêneos. Os seres humanos, mesmo os autosuficientes, ou inibidos, com problemas de relacionamento, sentem carência afetiva e ligam de certa maneira seus afetos em algo. As escolhas não raro recaem sobre objetos os mais surpreendentes. Os que têm problemas de auto-estima só conseguem se aproximar de pessoas de classe social ou intelectual inferior, pois, com elas, não se sentem ameaçados. Há homens e mulheres que não querem, ou não conseguem, mais se envolver de forma habitual ou tradicional e se ligam em garotos ou garotas de programa. Com eles, ou com elas, acabam mantendo uma "estabilidade" afetiva de tempos em tempos. Os exemplos se multiplicam e nem sempre têm conotação sexual no sentido estrito. Pois as necessidades de vínculo afetivo estão além da sexualidade, buscam companhia, lealdade e solidariedade. Isso explica por que, nas metrópoles, há pessoas que se ligam tanto em animais de estimação, como cães, gatos ou pássaros, e chegam a considerá-los como filhos ou filhas. Substituem as pessoas, ou as complementam, na necessidade do vínculo afetivo. Essa necessidade de apego pode chegar ao extremo que justifica o sucesso dos "tamagotchi" ou do "aibo", o cão robô da Sony. Já a sexualidade urgente, quando dissociada de outras aspirações, conduz a vínculos pessoais indiscriminados, sem levar em conta outros aspectos do objeto do desejo - seu caráter, personalidade ou subjetividade. Algumas vezes, as escolhas recaem em pessoas legais, mas muito complicadas. Quem não viu o filme Melhor É Impossível, com o confuso personagem interpretado por Jack Nicholson (71)? No extremo, o incrível é que há pessoas tão peculiares que se sentem - acreditem! - quase como ETs, apesar de, na aparência, serem normais. Por isso, hoje em dia, quando há quem se relacione melhor com máquinas e computadores do que com humanos, ganha certo sentido a previsão de David Levy, pesquisador britânico de inteligência artificial, autor do inquietante Amor e Sexo com Robôs: para indivíduos que não conseguem estabelecer conexões emocionais e sexuais com outras pessoas, talvez haja a possibilidade de fazer ligação com robôs românticos, em 2050. Muitos pombinhos por aqui ficaram intrigados. Afinal, ele ou ela não ficam horas conectados sabe-se lá com quem? Já não acontecem conversas virtuais e até - usando câmeras - "transas a distância"? Portanto, para evitar malentendidos, quem prefere se relacionar ao vivo com humanos precisa prestar atenção em seus pares reais e em seus sentimentos.