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Engano, do latim ingannare, é algo que ficou mal compreendido. Alguns

...enganos são frutos do acaso, outros nem tanto. Podem resultar de alguma mumunha, do quimbundo mumonya, trambique, modo de agir sem transparência que leva a propositais equívocos.

Deonísio da Silva Publicado em 15/03/2007, às 11h39

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Deonísio da Silva
Deonísio da Silva
Banheira: de banho, do latim balneum, banho, ligado ao verbo balneare, banhar. A banheira foi originalmente pouco mais do que uma grande bacia, que era levada de um lado para outro da casa. Depois, terminou fixada num cômodo, o quarto de banho, ou banheiro. Este, apesar do nome, abriga também a pia e o vaso sanitário, além do chuveiro, assim denominado porque a água, ao cair, semelha a chuva. Muito antes de 1960, quando o cineasta Alfred Hitchcock (1899-1980) lançou o filme Psicose, com sua famosa cena de assassinato no chuveiro, outras mortes tinham ocorrido no banheiro, na vida real e na mitologia. Uma foi a do rei de Micenas Agamenon, que, segundo Homero (século 8 ou 9 a.C.), no poema Ilíada, ao voltar da legendária Guerra de Tróia foi morto a machadadas pela esposa. Houve também a do político francês Jean-Paul Marat (1743- 1793), esfaqueado por Charlotte Corday (1768- 1793), uma camponesa do interior da França que veio a Paris apenas para matá-lo, em plena Revolução Francesa. Ela acabou morrendo logo depois dele, na guilhotina. Foi numa banheira, ainda, que, segundo a lenda, as filhas de Pélias, rei da Tessália, orientadas pela feiticeira Medéia, mataram o pai, mergulhando-o num caldeirão de ervas. Medéia havia garantido a elas que assim ele rejuvenesceria. Banheira, no futebol, designa o impedimento, originalmente designado pelo inglês off-side. O impedimento - ou banheira - ocorre quando a bola, lançada de trás, encontra o atacante no campo adversário sem nenhum jogador do outro time pela frente, exceto o goleiro. De origem controversa, a expressão "gol de banheira" pode ter tal nome porque o autor não poderia estar ali e, sim, na banheira, já que fora do jogo. Engano: de enganar, do latim ingannare, radicado em gannire, ladrar. Alguns enganos perpetuaram na língua portuguesa. Um exemplo é a palavra índio. Devemos a Cabral e Colombo a confusão, pois eles acharam que tivessem chegado às Índias quando descobriram o Brasil e a América, respectivamente. Assim, nada mais natural do que chamar os locais de índios. No inglês, há um engano em silkworm, minhoca de seda, o nosso bicho-da-seda, na verdade uma larva de mariposa. Também o vaga-lume, eufemismo escolhido para evitar-se o popular caga-lume, nome original do pirilampo, que em inglês é firefly, mosca de fogo. Só que ele não é mosca, é besouro. Se continuasse com o nome popular, certamente não designaria o lanterninha do cinema, como é chamado o funcionário que ajuda as pessoas a encontrar lugar depois que o filme começou. O iguana é outro caso de confusão. Chamado, em inglês, horned toad, sapo com chifre, não é sapo, é lagarto. O porquinho-da-índia, por sua vez, é, na verdade, um roedor da América do Sul. Estrela cadente também não é estrela, é meteoro. O banho turco é romano. O urso panda não é urso, mas um parente do guaxinim. Por fim, a caixa-preta dos aviões não é preta, além de não ser uma só: são duas, de cor alaranjada; uma registra as conversas na cabine, outra os dados técnicos mais recentes do vôo. Olímpico: do latim olympicus, relativo ao conjunto de montanhas designadas Olimpo, especialmente uma delas, onde, segundo a mitologia, moravam os deuses gregos, situada entre a Tessália e a Macedônia, servindo de adjetivo também aos jogos realizados pela primeira vez na cidade grega de Olímpia. Designa também o gol feito na cobrança de escanteio, quando o jogador faz com que a bola realize uma curva e chegue à rede sem receber nenhum outro toque. O nome vem dos Jogos Olímpicos de 1924, na Antuérpia, quando um jogador uruguaio fez o primeiro gol desse modo. Outros gols de nomes curiosos são o gol de peixinho, o gol do meio da rua, o gol de bicicleta e o gol de voleio. Mumunha: provavelmente do quimbundo mumonya, ardil, trambique, meio ilícito. Tem também o significado de segredo, modo de agir sem transparência, sendo conhecido apenas o resultado, não os meios empregados para obtê-lo. O escritor Plínio Marcos (1935-1999) registrou numa coluna no jornal Última Hora: "Uma geração inteira de artistas do palco recebeu do D'Aversas as dicas mais bidus que rachavam as mumunhas da profissão". Um dos primeiros a registrar mumunha com o significado de mutreta, artimanha, malícia foi o cantor Silvio Caldas (1908-1998). E o governador do Paraná, agora reeleito, Roberto Requião (65), quando deputado estadual, na década de 1980, deu o título de Barão da Mumunha a um confrade que empregara parentes na Fundação Cultural de Curitiba. Mumunha aparece também neste texto de Celso Ming (64), na edição de 7 de julho de 2004 do jornal O Estado de S. Paulo: "Não é o governo argentino que tem de ser cobrado por solapar os tratados comerciais do Mercosul. A questão de fundo não está na mumunha argentina. Eles fazem o jogo deles. O problema está em que o presidente Lula teve um sonho, como Martin Luther King teve o dele, que não é a emancipação do povo negro, mas a pretensão de liderar os países pobres contra o neocolonialismo dos ricos. Na esteira desse projeto, já não sabe se dá prioridade ao político ou se ao comercial e vai fazendo concessões".