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DONA ZILDA ARNS, UMA VIDA DEDICADA À ESPERANÇA

O AMOR À FAMÍLIA, AO PRÓXIMO E ÀS CRIANÇAS, ESPECIALMENTE, FAZ DESSA MULHER UM EXEMPLO MUNDIAL

Redação Publicado em 09/03/2007, às 17h51

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Em sua chácara perto de Curitiba, a médica que criou a Pastoral da Criança se mostra sempre doce e disposta a novos desafios
Em sua chácara perto de Curitiba, a médica que criou a Pastoral da Criança se mostra sempre doce e disposta a novos desafios
por Flávio Costa O som que a pediatra e sanitarista Zilda Arns Neumann (72) mais gosta de ouvir logo de manhã cedo, ao despertar na chácara onde mora em Campo Largo, perto de Curitiba, não é o canto dos canários e bem-te-vis que vêm à sua janela com os primeiros raios de sol. Não é o dos três cães e das vacas, ovelhas e galinhas que latem, pastam e ciscam por perto. Tampouco é o ronronar de Godofredo, o gato de estimação, espreguiçando-se ao acordar. O som matinal preferido de Zilda é um grito - "Oma! (vovó, em alemão)" -, dado por Danilo (6), um de seus nove netos. "É o melhor despertar que uma avó pode imaginar", diz ela. Zilda, viúva desde os 44 anos, mora com Danilo, filho de sua filha Sílvia (morta em 2003), com a filha Heloísa (39), psicóloga, e os dois filhos desta, Alessandra (15) e Edward (12). Muita gente e muitos nomes? Ela gosta. "Adoro casa cheia de família, de netos e filhos", revela. Além de Heloísa e Sílvia, Zilda teve mais três filhos: o veterinário Rubens (43), o administrador de empresas Rogério (36) e o médico Nelson (41), que trabalha com a mãe na Pastoral da Criança há 15 anos . Tem doze irmãos, entre eles o cardeal dom Paulo Evaristo Arns (85), e é tia do senador Flávio Arns (56). "Quando viajo, mal vejo a hora de voltar e estar com a família." Coordenadora da Pastoral da Criança, que criou à pedido da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em 1983, Zilda é, provavelmente, a mulher que mais viajou pelo Brasil. "Viajei de barco pelo Alto Solimões, no Amazonas, estive em todos os Estados, estive em tantas comunidades, que de algumas nem lembro mais", diz ela. Continua a viajar muito, pelo Brasil e pelo mundo. "É o carinho que recebo, a pobreza e as carências das pessoas que me motivam", diz ela. Com o trabalho de 268 mil voluntários, a Pastoral combate a mortalidade infantil e a desnutrição. Acompanha gestantes e ensinaàs mães noções de higiene, saúde e a preparação do soro caseiro, que salva vidas. Com esse trabalho, foi três vezes indicada ao prêmio Nobel da Paz. No final de 2006, Zilda anunciou que deixará a coordenação da Pastoral da Criança em dezembro deste ano. - Com tantos religiosos na família (2 irmãos são padres e 3 irmãs, freiras), a senhora nunca pensou em ser freira? - Recebi muitos convites e nenhum me atraiu. Sempre fui quieta e atenciosa com a família, mas não gosto de obedecer ordens, seguir um hierarquia rígida. Respeito, é claro, e admiro meus irmãos e irmãs e o trabalho da Igreja. - Por que a senhora decidiu deixar a coordenação da Pastoral? - Ninguém pediu para eu sair, a decisão é minha. Defino minha trajetória na Pastoral como uma longa história de amor. Ou como uma criança que eu criei e hoje está uma moça bonita, sábia e cheia de graça. Chegou a hora de ela assumir as rédeas e seguir sozinha. Também quero um pouquinho mais de tempo para me dedicar à família e ao canteiro de rosas que tenho em casa. Quem sabe até consiga andar mais de bicicleta... - Como começou sua história com a Pastoral? - Concluí o curso de Medicina em 1960 e prestei concurso para trabalhar como pediatra na Secretaria de Saúde. No hospital público, em Curitiba, via tanta miséria, tanta criança doente, com diarréia. Pensava: "Será que vou passar minha vida inteira curando o que poderia ser prevenido?". Em 1982, depois de uma reunião da ONU sobre a paz mundial, em Genebra, meu irmão, dom Paulo Evaristo Arns, cardeal arcebispo de São Paulo naquela época, me telefonou perguntando se eu aceitaria pensar em como implantar um programa para a igreja ajudar a salvar a vida de crianças. Tinha a certeza de que a maioria das doenças que acometiam gestantes e crianças poderiam ser prevenidas se as famílias tivesses mais conhecimento e apoio. Começamos eu, uma datilógrafa e um grupo de obstinados. E aconteceu como no milagre da multiplicação dos pães. Cada líder difundia seu saber por 10 a 20 famílias. Hoje acompanhamos cerca de 2 milhões de crianças e 95 mil gestantes no Brasil. Também estamos em outros 16 países. - O trabalho na Pastoral exige muita dedicação e viagens. Os filhos entenderam sua ausência? - Sou muito apegada à família. Quando começamos com a Pastoral, meu filho menor tinha 9 anos e o maior, 19. Chamei todos para uma conversa e expliquei o trabalho que a mãe iria fazer. Sempre procurei não trabalhar nos fins de semana, para ficar com eles. As festas de aniversário marcávamos para os dias em que estaria em casa. Eles entenderam e me apóiam muito até hoje. Esse mesmo tipo de diálogo hoje pratico com meus netos. Me interesso muito pela vida deles, se estão felizes, pelas notas da escola, essas coisas. - A senhora trabalha 12, às vezes 15 horas por dia. Qual o segredo de tanta disposição? - Nunca fui de ficar parada, desde a juventude. Fui campeã estadual de vôlei aos 16, 17 e 18 anos, e campeã de tênis de mesa. Como muitas frutas e verduras, há 15 anos estou com o mesmo peso. E quando a gente gosta do que faz, não se cansa. - Quanto não está trabalhando, o que gosta de fazer? - Acordo cedo, às cinco e meia da manhã, para fazer café e escutar os sons da natureza. Todo fim de semana tem gente em casa para almoçar e uma vez por ano participamos do encontro da família Arns, que em 2006 reuniu mais de 90 pessoas. Toco piano e acordeão quando meus filhos e netos pedem ou quando tenho tempo. Gosto de músicas alemãs e de bandas de música. Ao cinema não vou há muito tempo, mas ainda gosto de O Gordo e o Magro. Costumava ler dois livros por semana, adoro biografias, mas hoje depende do tamanho da letra. Gosto mesmo é de ficar em casa. Há três anos, troquei o apartamento no centro de Curitiba por esta chácara, com mais espaço para a família. Nos fins de semana, nossa casa está sempre cheia, e adoro. - O que a senhora pretende fazer quando deixar a coordenação da Pastoral da Criança? - Saio da coordenação, mas continuarei viajando e divulgando o trabalho. Também coordeno a Pastoral da Pessoa Idosa, criada pela CNBB em 2004. É um trabalho importante, de conscientização das famílias sobre a assistência a seus idosos. Precisamos de ações preventivas e educativas nessa área. - A aposentadoria, então, não está nos seus planos? - Nem pensar. FOTOS:JADER DA ROCHA/RAVI STUDIO FOTOGRÁFICO