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Revista / Entrevista

Ana Cañas mergulha em fase longe de cobranças

A cantora Ana Cañas brinda o conforto da própria pele ao lançar novo trabalho

Por Daniel Palomares Publicado em 07/02/2023, às 07h00

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Ana Cañas em entrevista na Revista CARAS - FOTOS: MARTIN GURFEIN; PRODUÇÃO: CARLINHOS DUARTE; BELEZA: OMAR BERGEA; DIREÇÃO DE IMAGEM: RAFAEL CAÑAS
Ana Cañas em entrevista na Revista CARAS - FOTOS: MARTIN GURFEIN; PRODUÇÃO: CARLINHOS DUARTE; BELEZA: OMAR BERGEA; DIREÇÃO DE IMAGEM: RAFAEL CAÑAS

Já dizia Belchior (1946-2017): “O passado é uma roupa que não nos serve mais”. Seguindo os ensinamentos do mestre, Ana Cañas (42) também se vê preparada para um futuro diferente, com menos preocupação e mais leveza. Após rodar o Brasil entoando os maiores sucessos do cantor e compositor em um show que, agora, vira DVD, Ana mergulha em fase de efervescência e só quer saber de calmaria e tranquilidade! “A gente se preocupa muito com o que os outros vão pensar, balizando nossos atos pelos outros. Estou seguindo meu coração, buscando minha verdade, não me importando com o que estão achando”, comemora a cantora, em papo com CARAS direto de seu refúgio, uma cobertura no charmoso bairro dos Jardins, em São Paulo.

– Como surgiu essa grande conexão com Belchior?
– Ele está no panteão da história da MPB como uma das pessoas mais brilhantes da nossa música. Belchior entendeu que a gente vive períodos cíclicos, de avanços e de retrocessos. Faz sentido cantá-lo. Eu tenho muita proximidade com os filhos dele. Ganhei uma música inédita para cantar no DVD, Rolê no Céu, parece uma mensagem dele para nós. É um presente para a minha vida, uma das poesias mais importantes que temos. O que me marcou sobre ele foi uma identificação pessoal. Ele veio para São Paulo e passou fome, teve um começo difícil. Eu também morei em um pensionato, distribuí panfletos em farol... Eu me descobri cantora por necessidade. Tem muita gente neste País que ama o Belchior. Ele sempre emociona todo mundo. Acho que quanto mais a gente vai ao nosso íntimo, mais conseguimos emocionar as pessoas.

Ana Cañas em entrevista na Revista CARAS

– Você se diz mais confortável consigo mesma. O que mudou?

– Vem de uma maturidade. A gente se preocupa muito com o que os outros vão pensar, balizando nossos atos pelos outros. Estou seguindo meu coração, buscando minha verdade, não me importando com o que estão achando. Eu estou me permitindo ser mais eu mesma e, quanto mais me permito, mais amizades faço. Não me cobro tanto e me divirto mais. Somos 8 bilhões de pessoas e ninguém é igual a mim. Quanto mais à vontade você fica com você, mais aceita as diferenças do outro. Fui fazendo as pazes com tudo que passei ao longo da vida. Eu me via mais tensa e preocupada. Agora, quero só cantar e ser feliz. Estou relaxada, tranquila, não me estresso.

– Você teve uma trajetória marcada pela militância política. Como isso a afetou?
– Eu já estive nesse front da militância. Eu achava que tinha que salvar o mundo, que como cantora tinha essa obrigação. Eu fiquei tão adoecida, fui ameaçada de morte, sofri tentativa de hackearem minhas redes. Isso minou minha felicidade. Sou feminista desde que nasci e continuarei sendo, faz parte do meu espírito. Mas não quero mais ficar no papel de articuladora do pensamento militante. Meu terreno é a sensibilidade, a emoção, a lágrima, o coração. Tenho meus pensamentos, mas não quero estar em um lugar em que seja cobrada. A política é o espaço/tempo, a arte é perene. Isso me interessa mais que jogo político neste momento. Eu me sentia muito solitária, as pessoas me pediam muita coisa, porque me coloquei nesse lugar. Se eu cantar, talvez esteja dizendo muito mais do que um texto sugerindo isso e aquilo.

– Quais dificuldades em ocupar espaço na música sendo mulher?
– A gente ainda vive em um mundo muito machista. As posições de poder são ocupadas por homens héteros cis brancos. A mulher já nasce em um lugar difícil e, na música, não é diferente. Eu tenho uma produtora mulher, uma iluminadora mulher, me cerco de mulheres. Elas executam tudo à altura de qualquer homem. Eu não queria ser uma mulher reduzida a militância. Devia ser assim para a Marília Mendonça. As letras dela não afrontam os homens, ela não fala do mundo machista. Mas diz que sai, bebe, não quer ser amante. Estou nesse lugar de mostrar com gestos. Vivo a liberdade que proclamo com minhas músicas.

Ana Cañas em entrevista na Revista CARAS

– Como percebe a diversidade atual na música nacional?
– Eu sou uma entusiasta dessa diversidade. Acho maravilhoso ter uma drag queen mainstream, uma mulher preta mainstream. Temos a Anitta, uma mulher empoderada, falando de sexualidade, uma grande empresária. A Marília era uma mulher gorda ocupando espaço de poder na música. Isso é revolução. Escuto todas essas artistas. Outro dia, eu fui assistir ao show do Gusttavo Lima: era gigantesco, em um estádio, com fogos... Os gringos vieram ver. Isso é show business! Eu não tenho mais preconceito comnada. Acho pretensioso o pessoal da MPB achar que uma música é menor. Por que menor se atinge tanta gente? Não deveríamos parar e ouvir aquilo? A música é um meio desunido e competitivo. Nós poderíamos celebrar mais o sucesso de outras pessoas. Quero ter outras cantoras que me inspirem, que me façam buscar ser melhor.

– Como arranja tempo para cuidar de você no meio de uma rotina tão atribulada?
– Estou em um momento acelerado da carreira. Um dia edito meus trabalhos, no outro, tiro fotos, no fim de semana, saio com o boyzinho que estou conhecendo. Às vezes, as pessoas olham e não imaginam o quanto trabalhamos. Subir ao palco e cantar é só 5%. Quando dá, vou à academia. Senti uma mudança no meu corpo, na estrutura, que me ajuda na estrada. Sou muito da vida real, minimalista. Longe de criticar quem gosta de ostentar, mas sou feliz na simplicidade. Sou vaidosa, mas acompanho a questão do etarismo. Sou adepta do envelhecer natural, nunca fiz nenhum procedimento. Me cuido, mas esse não é o foco da minha vida. Não gostaria que minha vida dependesse de rugas. A vida não acaba na velhice, só quando a gente morre. E eu quero estar cantando até morrer!

– O que espera para o futuro?
– Vou lançar esse DVD, que eu mesma editei, cuidei de todos os detalhes. Está lindo, estou orgulhosa. Eu estou feliz demais. Quero seguir fazendo meus discos, cantando minhas canções. Estarei onde me chamarem para cantar, sempre sorridente.

Ana Cañas em entrevista na Revista CARAS

Ana Cañas em entrevista na Revista CARAS

Ana Cañas em entrevista na Revista CARAS

Ana Cañas em entrevista na Revista CARAS

Ana Cañas em entrevista na Revista CARAS

FOTOS: MARTIN GURFEIN; PRODUÇÃO: CARLINHOS DUARTE; BELEZA: OMAR BERGEA; DIREÇÃO DE IMAGEM: RAFAEL CAÑAS