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Revista / Entrevista

Walkiria Ribeiro afirma: ‘As mulheres precisam se amar’

Após superar a fase difícil, Walkiria Ribeiro dá a volta por cima na carreira e no amor: 'Hoje vivo do meu trabalho, da minha arte'

Walkiria Ribeiro - FOTOS: ANDRÉ IVO
Walkiria Ribeiro - FOTOS: ANDRÉ IVO

Para Walkiria Ribeiro (46) coincidências não existem, elas são pequenos milagres que Deus põe à mão. Quando decidimos que a locação para essa matéria seria o Muhcab, o Museu da História e da Cultura AfroBrasileira, no Rio, não sabíamos que no local há um mural com pinturas de Zezé Motta (79). “Eu sou atriz por causa da Zezé, por causa da Xica da Silva”, revelou a intérprete da Rejane Miranda na global das 7, Fuzuê, que, agora, faz a mesma novela que sua diva inspiradora e protagonista do longa Xica da Silva, de 1976. Prova viva de que representatividade importa, a paulistana reflete sobre racismo e amor-próprio.

– Você não consegue fingir costume ao ver o seu nome nos pertences da Rejane. É uma felicidade ver aonde chegou?

– É! Eu sou a minoria, a exceção. Uma menina preta, da zona sul de São Paulo, periférica, pobre, que foi atrás de um sonho, que foi galgando, foi se transformando. Meu primeiro contato com a arte foi com a dança, meu pai me pôs no balé clássico aos 2 anos e todo o resto foi muito orgânico, as coisas foram acontecendo. Eu estudei no Theatro Municipal de SP, aquele pedaço da cidade, pra mim, diz muito. Foi o primeiro ato de racismo em que a minha família realmente acreditou. Uma professora de balé falou: ‘Você sabe que sua filha não vai ter carreira profissional, né? Não tem bailarina preta’. Os meus pais acreditaram nisso e me tiraram do balé clássico.

– E como foi para você?
– A gente não tinha muita noção, mas hoje, olhando para trás, isso impactou de alguma forma na minha vida. O grande presente disso é que eu fazia parte desse universo do samba, comecei a desfilar na Vai Vai com 8 anos, então, mesmo tendo os paradigmas, do clássico para o popular, eu continuei na dança. Tenho orgulho de dizer que o samba me deu tudo, me deu norte, me deu sonhos, me deu referências. Esse empoderamento que a gente fala hoje na sociedade, em que meninas pretas conseguem se reconhecer, eu já tinha isso no meu universo. A gente fala muito de bullying hoje, que na minha época não tinha nome, era só aquela encheção de saco, aquele falatório. ‘Nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia?’. Essa música norteou minha vida negativamente. Mas, por outro lado, tinha o kanekalon, as trancinhas, então, não tinha esse lugar de olhar e me sentir feia. Porque aquelas mulheres do carnaval, lá da Vai-Vai, que eu encontrava todo final de semana, elas se empoderavam disso. O carnaval me deu tudo, me deu empoderamento, autoridade, consciência, possibilidade de trabalho, porque fui emancipada e comecei a fazer as minhas primeiras viagens para o exterior com 17 anos.

– E além da luta contra o preconceito, tem a da carreira de atriz, que é uma profissão muito instável...
– E com pessoas pretas é ainda pior, né? Acho que nós estamos atravessando uma nova realidade, em que nós, atores pretos, não precisamos nos preocupar com que histórias a gente vai contar. Para poder atuar numa novela, num filme, eu precisava de um núcleo preto, precisava de uma família, precisava de uma situação, muitas das vezes histórias escravagistas. Mas a gente não tem mais essa realidade. Hoje, olho para a Rejane e penso que, há 20, 30 anos, seria difícil ter pego essa personagem. Não por competência, mas por estética, perfil. Olho para Fuzuê e vejo que somos mais de 20 atores negros no elenco!

– Isso prova que o audiovisual está mudando...
– Mudar é uma palavra que não condiz, acho que a gente realmente está trazendo para esse universo a aceitação de uma sociedade. Você vai à padaria, o dono da padaria é preto. Você vai ao banco o gerente é preto. Isso faz parte da minha rotina. Quero ver no comercial de margarina essas pessoas que eu convivo todo dia, uma família japonesa com preto, os relacionamentos inter-raciais, uma mãe roqueira... Acho que o audiovisual parou de inventar um imaginário que em algum momento virou padrão. Está na hora de reconhecer essas pessoas que estão no nosso entorno todos os dias.

– Na pandemia você perdeu sua mãe e quase perdeu sua casa. Assim como Rejane vive um recomeço, você também vive um recomeço nessa fase da vida?
– Eu fui do céu ao inferno muito rapidamente. Mas a novela veio para fazer um fuzuê na minha vida de crença, de possibilidade. Não que não acreditasse em mim, mas é que quando você trabalha por necessidade é cruel. Nunca desisti de mim, mas tive que abandonar meu sonho, porque precisava comer, precisava pagar conta, precisava me virar. Hoje, olho para trás e vejo que realmente estou respirando de novo, de um jeito tranquilo, natural, consciente, com estratégia, porque vivo do meu trabalho, da minha arte.

– Está feliz no amor também!
– Estou feliz, amando, me amando, estou profissionalmente em êxtase, porque a Rejane Miranda me traz o tamanho de uma personagem que eu nunca tive. E acho que é um momento de maturidade mesmo. Estou chegando a meio século! Acho que estou dando um caldo. Olha para mim! Vou chegar
aos 50 bem (risos).

– E você se cuida muito?
– Sempre tive um corpo disponível para dança, um corpo em movimento, mas quando você passa dos 40 o metabolismo muda. Não sou contra nenhum tipo de tratamento incisivo, mas sou natural, não tenho próteses, não tenho maiores transformações nem facial, nem corporal. Me cuido para além do meu corpo, cuido da saúde. Tenho esse olhar no espelho, gosto do meu corpo como ele está, mas entendo que tem mudanças. Nós, mulheres, precisamos nos amar. Dentro de uma relação amorosa o seu maior parceiro tem que ser você mesmo. Acho que tive que aprender a duras cargas, porque a gente dá amor demais para o outro e não se ama. A maturidade me trouxe isso, entender que se eu não me amar, se eu não for plena na minha companhia, se eu não entender que sou o melhor de mim para mim, não tenho como dar para o outro. 

Walkiria Ribeiro

Walkiria Ribeiro

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FOTOS: ANDRÉ IVO ; ASSISTENTE DE FOTOGRAFIA: MARCIO FARIAS ; BELEZA: PAULA CRIS; STYLING: DIIH MORAIS; JOIAS: LAVISH; AGRADECIMENTOS: MUHCAB