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Fábio Assunção sobre dependência química: ''Precisamos discutir outro ponto de vista''

No ar com a nova série do Globoplay, Onde Está Meu Coração, ator avalia como o tema é explorado em socidade e fala de sua experiência pessoal com drogas

Isabela Thurmann Publicado terça 4 maio, 2021

No ar com a nova série do Globoplay, Onde Está Meu Coração, ator avalia como o tema é explorado em socidade e fala de sua experiência pessoal com drogas
Fábio Assunção conversa sobre drogas durante entrevista de 'Onde Está Meu Coração' - Globo/ Divulgação

O primeiro episódio de Onde Está Meu Coração?, a mais nova série da Globoplay, foi ao ar na última segunda-feira, 03.

Com uma trama que trata sobre o quanto a dependência química abala uma família, o seriado conta com Letícia Colin, Fábio Assunção, Mariana Lima e Daniel de Oliveira como principais.

Fábio, que já teve um problema de vício em álcool e drogas, interpreta o pai de Amanda, a jovem que tem a doença na história.

Durante a coletiva sobre o lançamento, que contou com a participação da CARAS Digital, o ator contou um pouco sobre sua experiência pessoal ao ser questionado sobre as cenas mais impactantes de serem gravadas.

“A gente associa muito essa questão de drogas com as pessoas vulneráveis. A gente tá [na série] trazendo essa discussão desassociando a droga do crime, das ruas, desses tabus todos”, começou. “É muito mais comum do que a gente finge ser, acho que é uma hipocrisia muito grande em relação a esse tema, o crack é usado nas classes sociais altas também porque a questão da droga, das doenças todas, elas não escolhem etilismo, classe social, mas as pessoas mais abastadas elas tem mais estrutura pra tratar isso em um âmbito mais privado. Engraçado como esse assunto pra mim, ele tão tão bem resolvido na minha cabeça, eu vejo isso com distanciamento e uma compreensão”.

“A gente fala da maconha, que já é usada em muitos países do mundo como cura e, a gente no Brasil, trata isso como uma coisa ‘caramba, esse sujeito fuma maconha!’ e a questão do álcool é uma questão banalizada. Álcool é uma droga pesadíssima, acidentes horríveis acontecem com álcool, acidentes domésticos são decorrentes do uso de álcool, e a gente fala da maconha. Qual de nós não toma remédio pra dor? Mas, o sujeito se droga… Ele deve ter alguma dor, que ele não sabe como resolver. E a gente não consegue ter uma empatia/ uma compreensão de que nós somos também vulneráveis a tudo isso”, prosseguiu o marido de Ana Verena

Em seguida, ele falou um pouco mais sobre a questão da droga na trama em si. “Essa série fala sobre o desmoronamento de uma família, uma família que se ama. Eu faço um pai, que é apaixonado pela família e ele, quando vê a filha dependente de crack, apesar de ser médico, ele se desorienta completamente, ele não sabe o que fazer. Ele traz uma internação compulsória como uma solução. Quem é que pode ser tratado por obrigação? Qual é a função de uma internação compulsória?”, refletiu. “Eu fiz esse pai que escolhe esse caminho porque ele nunca parou pra discutir, pra olhar no olho dessa questão, pra olhar reto nesse tema, encarar o respeito que esse assunto deve ter. A gente perdoa todas as doenças, mas a dependência química tem uma coisa mítica. É muito comum ver adolescentes se embriagando e todo mundo achando astral. Enfim, eu acho que essa série fala de como a sociedade não discute esse tema e, quando acontece dentro de casa, todo mundo tem que se virar, pra tentar encontrar um caminho”.

“Eu acho [a série] uma grande oportunidade de esse tema ser discutido nas famílias brasileiras de uma forma adulta, sem a questão da exclusão, porque se você coloca esse tema acontecendo na cracolândia, todo mundo ia falar 'pô, essa gente aí’, não, não é essa gente aí, somos nós aqui. Vamos olhar pra esse assunto, olhando pra dentro de nós e não como uma coisa que não nos pertence. Essa série traz essa oportunidade, foi muito importante pra mim fazer essa série”, concluiu.

Assunção também contou que levou Colin para grupos de N.A., como pesquisa para as gravações. “Eu levei a Leticia no N.A. pra ela conhecer, a gente participou de uma roda de partilha e tem uma coisa interessante que, não só a direção, como os autores, queriam tratar esse tema com muito respeito.A gente fez rodas de partilha emocionantes, foram momentos lindos que a gente viveu se preparando pra essa história”, revelou.

Em dado momento, questionaram para o artista se gravar o seriado foi um gatilho e ele foi super honesto ao dar sua resposta: “Eu acho que a série, como eu tô fazendo um pai de uma dependente química me fez ter um distanciamento e poder ver a situação de fora. Ali, tem essa coisa pessoal das nossas vivências/ experiências, mas ali é um trabalho de ator”, disse. “Esse trabalho tinha essa questão, que era um assunto que era mais próximo, mas também não era, porque eu tava numa outra posição dentro dessa associação. Então, eu trabalhei menos a questão de dependência química e mais como as pessoas veem esse assunto. Eu trabalhei muito essa questão da desorientação, desse desespero em querer resolver, mas, na verdade, só ela [a Amanda] pode querer o melhor para ela”, prosseguiu.

“Foi interessante, me deu um distanciamento de outro ponto de vista, o que também não deixa de ser um ponto de vista que eu tenho na minha vida porque eu também sou diverso, eu tenho três filhos”, continuou se referindo João, Ella e Alana. “Eu também já tive conversa com meus filhos sobre isso, então foi uma coisa muito natural, estar fora disso e falar sobre isso. Essa série pra mim foi tudo, foi um grande afeto. Foi também pensar sobre o assunto e olhar para ele por um outro ponto de vista, trazer pra um ambiente familiar, e ver também como a família se desconstrói”, concluiu Fábio. 

Último acesso: 06 May 2021 - 14:03:44 (387886).

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