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A realidade de um casal não deve ser feita só de rotina e sensatez

Alberto Lima Publicado em 06/11/2013, às 17h21 - Atualizado em 10/05/2019, às 11h20

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Mal o casal retorna das férias e um dos parceiros profere a sentença: “Está na hora de voltarmos à vida real!”. Um minutinho, por favor: o que foi vivido ao longo de duas ou três semanas de lazer não fez parte da vida real? Foi virtual, fantasioso, expressão de loucura? Foi exceção e, portanto, não pode ser parte da regra? Nada disso. Se nosso senso de realidade não puder incluir um contraponto para o que se supõe “sensato”, como o trabalho e as atividades rotineiras do cotidiano, estaremos em palpos de aranha. A tal realidade terá a assepsia das paredes de um hospital e a vida nela contida carecerá de graça, alma e gozo. É isso que queremos para nós e para nossas relações? É essa a visão de mundo que desejamos veicular aos nossos filhos?

Os valores culturais que nos formaram são mesmo bastante dicotômicos. Temos dificuldade para aceitar a concomitância de opostos. Como pode algo ser certo e errado ao mesmo tempo? Ou progressista e retrógrado? Acostumamo-nos a crer que há errado ou certo, nutritivo ou tóxico, “do bem” ou “do mal”, como se essas categorias fossem sempre mutuamente excludentes.

Pois bem: esse “ou” é o cerne de nossa neurose. A saúde reside no “e”. O “e” indica ambivalência (duas valências contempladas). Se quisermos ser saudáveis no mundo e nas relações, precisaremos tolerar a concomitância dos opostos. A desestabilização que isso nos causará será responsável por nossa evolução.

Claro que por muito tempo em nossa vida as polarizações (ou, ou) são necessárias. Elas contribuem para que aprendamos a discernir o joio do trigo. Quando já somos capazes de perceber o que nos faz bem e o que nos faz mal, no entanto, chega a hora de ir mais longe, de aprender a reconhecer o mal que faz o suposto bem, e o bem que pode estar contido no mal.

Há algo de insensato na rotina (como os perigos da alienação, do “workaholismo”, do tédio e da depressão), do mesmo modo como se pode divisar algo de sensato no lazer e no prazer (a diversidade, a chance de respirar, o trazer para o primeiro plano da consciência dimensões de nosso ser que normalmente ficam nas sombras). Quando saímos de férias, ou quando estendemos o fim de semana, o que fazemos é temperar com diástoles as sístoles do dia a dia. (Alguém já ouviu falar de um coração que só pulsa sístoles?) Se pudermos inserir contrapontos episódicos com mais frequência em nossa vida, certamente seremos mais saudáveis. Isso vale para indivíduos e, em especial, para casais. Improvisar, mudar, inventar, surpreender, desconstruir, criar, frustrar expectativas, sussurrar bobagens de amor no meio da tarde, vestir uma calcinha de cetim, trazer docinhos para o jantar, sequestrar a parceira para um canto secreto a caminho do apartamento, comprar passagens para a Tailândia fora de temporada, alugar um chalé na montanha -- tudo isso pode ter o significado de abertura para uma vida mais plena, mais cheia de graça, prazer e gozo e, não menos importante, real. Vida real. Expressão de realidade da melhor qualidade.

A rotina e o trabalho permanecerão no lugar de honra que sempre tiveram, mas serão temperados com bom molho. A graça, o prazer e o gozo se distribuirão melhor pela vida. Será mais fácil tolerar os conflitos e as adversidades e encontraremos maior motivação para o repetitivo e o previsível. Sensibilizado, o amor agradecerá.