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Publicidade / Fashion Tendências

A extinção do trabalho artesanal preocupa indústria da moda. Conheça a crise que pode acabar com a alta-costura

Camila Carvas Publicado em 17/04/2013, às 11h44 - Atualizado em 10/05/2019, às 11h20

Antes de passar para as mãos da família Lesage, em 1924, o mais antigo atelier de bordados da França teve entre seus clientes Napoleão III e Madeleine Vionnet. Em 2002, o Lesage foi comprado pela Chanel - Getty Images
Antes de passar para as mãos da família Lesage, em 1924, o mais antigo atelier de bordados da França teve entre seus clientes Napoleão III e Madeleine Vionnet. Em 2002, o Lesage foi comprado pela Chanel - Getty Images

Às vésperas da semana de moda de Paris, costureiras de mãos levíssimas, apelidadas de “petites mains”, se debruçam em molduras de madeira para bordar paetês, cristais e pérolas em tecidos finos. No mais antigo atelier de bordados da França, o Lesage, elas correm para transformar roupas em obras de arte. O trabalho delas quase não mudou desde 1858 e define o que é alta-costura. Mas apesar da sua indiscutível importância, diferentemente do que acontecia no início do século 20, hoje os próprios artesãos são artigos de luxo. Peças raras em uma engrenagem cada vez maior e mais comercial.

No final de 2011, aos 82 anos, morreu François Lesage, o homem que comandou por mais de 50 anos o estabelecimento que atendeu de Charles Worth – o pai da alta-costura – a Elsa Schiaparelli, Yves Saint Laurent, Jean Paul Gaultier e Karl Lagerfeld. Felizmente, o atelier continua sendo o guardião de um hoje raro conhecimento: o ofício de bordar. E é para preservar esse tipo de savoir faire que marcas de luxo têm comprado oficinas especializadas. “Assim, assegura-se a cadeia de fornecimento”, diz Elisabeth Ponsolle des Portes, diretora do Comité Colbert, associação francesa que reúne 75 marcas de luxo.

Desde o final dos anos 1990 até outubro de 2012, a Chanel já comprou nove dos mais tradicionais — e antigos — ateliers. Entre eles, o próprio Lesage; a sapataria Massaro; o Lemarié, especializado em plumas; a chapelaria Michel; o Guillet, “rei das flores” para moda; e a luvaria Causse. Recentemente, a Louis Vuitton comprou a La Fabrique du Temps, uma relojoalheria baseada em Genebra, na Suíça. E as italianas Ermenegildo Zegna, Marzotto e Loro Piana compraram a companhia Pettinatura di Verrone, reconhecida por sua produção de lãs finas e cashmere.

“Os ateliers continuam importantes para a alta-costura”, diz Robert Burke, consultor de mercado de luxo. “Em alguns casos, o trabalho será feito dentro da própria casa de costura e em outros um especialista artesão será trazido ou o trabalho será terceirizado para uma dessas oficinas”, diz. E o problema não se limita à França. Citando os bordados da Índia e as tecelagens italianas, Burke enxerga outra dificuldade. “O moderno e competitivo mercado de trabalho é tão atrativo para as novas gerações que, certamente, há menos artesãos e especialistas entrando nesses ateliers.”

O mercado de luxo — global, e não só o francês — está sob pressão para manter ou encontrar artesãos qualificados. “Dizemos aos jovens que essa área é bastante promissora, altamente valorizada, e que trabalhos desse tipo podem se tornar uma paixão”, diz Elisabeth. Para mostrar isso na prática, o Comité Colbert convida milhares de estudantes para visitarem ateliers representativos, como os das joalherias Cartier e Boucheron, da perfumaria Guerlain e da relojoaria Breguet. E marcas como a francesa Hermès e a italiana Brioni buscam contornar esse problema oferecendo cursos e estágios dentro de suas oficinas a fim de preservar essas habilidades. O próprio Lesage fundou, em 1992, uma escola que leva seu nome e ensina seus truques. E a Gucci lançou o Gucci Artisan Corner, uma espécie de tour mundial de artesãos, para dar mais visibilidade ao artista por trás do produto.

O número de artesãos na indústria da costura está mesmo diminuindo porque, se por um lado os mais velhos estão se aposentando, os mais novos preferem os holofotes das passarelas ao anonimato dos ateliers. Em 1920, havia cerca de 10 mil bordadeiras na França. Hoje, estima-se que sejam apenas 200. Além do “choque entre gerações”, a retração do mercado de alta moda, as mudanças de comportamento e a mão de obra barata de lugares como a China colaboram para a formação desse cenário.

Uma boa saída para essa “crise” é o que se convencionou chamar de “high fashion ready-to-wear”, uma espécie de elite das roupas prontas para usar. A demanda desse segmento aumentou muito nos últimos 15 anos e transformou também o trabalho nos ateliers. No Lemarié e no Lesage, por exemplo, 80% da produção são destinadas a ele. Numa concessão aos novos tempos, aos 116 anos, o Guillet hoje oferece uma linha própria de acessórios e serviços para noivas. Em sua lojinha é possível comprar tiaras e arranjos com as mais delicadas margaridas, jasmins e lírios. O padrão do ready-to-wear subiu tanto que hoje é difícil definir onde ele termina e começa a alta-costura.

Mas se hoje os ateliers, mesmo aqueles que foram comprados, podem produzir para diversos clientes, é difícil garantir isso no futuro. Até dezembro de 2011, por exemplo, o Grupo Swatch, que inclui nomes da alta relojoaria, como Longines, Omega, Tissot e Breguet, vendia componentes altamente especializados e criados por artesãos para os seus principais concorrentes. Mas a história começou a mudar em janeiro deste ano, quando eles decidiram diminuir esse fornecimento para, além de aumentar as margens de lucro, assegurar material para as suas próprias marcas. E o que aconteceria se a Chanel tivesse essa mesma ideia e, a partir de então, Lesage, Lemarié, Guillet e Michel passassem a produzir apenas para ela? Haveria um monopólio na alta-costura?

Fato é que tanto esse know-how tradicional quanto os próprios ateliers são parte integral do luxo. O trabalho artesanal, apesar de soar um pouco anacrônico nos dias atuais, é fundamental para a moda. A colaboração entre esses artesãos e os designers cria peças cada vez mais impressionantes e complexas. Segundo o próprio Lagerfeld, se esses ateliers desaparecessem, seria o fim da tão celebrada haute couture. Afinal, a obsessão pela perfeição típica desse segmento mora nesses detalhes.