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Atriz de 'Amor de Mãe' fala sobre violência doméstica e reforça ajuda para as vítimas

Beatrice Sayd, que interpretou Edilene em Amor de Mãe, falou da importância de se mostrar casos de violência doméstica na mídia

Valentina Rosa Publicado sexta 9 abril, 2021

Beatrice Sayd, que interpretou Edilene em Amor de Mãe, falou da importância de se mostrar casos de violência doméstica na mídia
'Amor de Mãe' aborda violência doméstica e reforça ajuda - Leo Aversa

A violência doméstica sempre existiu, não é novidade. Entretanto, com o início da pandemia e o isolamento social, o número de casos cresceu muito no Brasil. Houve também um grande crescimento no número de denúncias, principalmente após a grande mídia passar a abordar esse assunto com frequência em jornais e até mesmo na teledramaturgia. 

Em Amor de Mãe, novela escrita por Manuela Dias, foi mostrada uma trama abordando o assunto. A personagem Edilene, empregada doméstica de Lídia, passa a sofrer agressões do namorado. Durante uma chamada de vídeo entre Lídia e a advogada Vitória, os machucados de Edilene vêm à tona e a advogada decide ajudar a doméstica, entrando com uma medida restritiva contra o agressor e até permitindo que a moça morresse em sua casa por um tempo. 

Beatrice Sayd, que interpreta Edilene, acredita que é extremamente necessário que mulheres que sofrem violência vejam relatos parecidos na televisão: "Fiquei muito orgulhosa por dar voz a uma causa tão importante. Eu busquei fazer a Edilene nesse momento de muita dor com dignidade. Eu li sobre o assunto, vi foto, assisti um documentário americano sobre violência doméstica, estudei com um amigo autor. A minha maior preocupação e cuidado foi dar dignidade nesse momento de tamanha dor. [...] Nenhuma mulher precisa sofrer nenhum tipo de violência. Nenhuma mulher tem que fazer nada que não seja da sua vontade. A gente saber que a gente tem outra mulher pra se apoiar, a gente não é inimiga. É uma causa que me atravessa muito. O encontro da Vitória com Edilene nesse momento de dor, acaba que fica muito potente na novela.", disse ela em um bate-papo com a CARAS Digital. 

A psicóloga Alessandra Augusto concorda com Beatrice e diz que esse é um bom meio de mostrar que as mulheres não estão sozinhas: "Hoje nós temos a mídia, a mídia falada, a mídia digital, onde as mulheres podem encontrar esse apoio, onde elas podem entender que não estão sozinhas e que existem serviços de apoio. Nós temos casos de que mulheres sequer entendem a violência. Então há todo um trabalho pra que essa mulher primeiro entenda que aquilo que ela está sofrendo é violência, porque ela vem de lares violentos, onde aquilo ali era uma rotina. Então o indivíduo acaba entendendo aquele comportamento, aquele tratamento, como uma consequência até de uma coisa que ela mesma provocou. Ela precisa entender que aquilo é violência, é violação de alguma coisa. Ela está sendo violada nos seus direitos, seja ele qual for. Nos temos uma discriminação extensa de crimes, de violencia domestica e crimes contra a mulher. Então se faz necessário essa sororidade de falar, de explicar, de mostrar pra essas mulheres que existem serviços de apoio e que tem como ela sair desse ciclo."

Ainda na trama, após ajudar Edilene, Vitória passa a ajudar também outras mulheres que sofreram agressões. Beatrice vê isso como o ponto alto dessa fase da novela: "Você pega a Vitória começando a ajudar as mulheres vítimas de violência da comunidade da Edilene, o quanto é potente esse encontro entre mulheres, tanto na situação de vítima, quanto na situação de ajudando, aquela que ajuda, o quanto é importante essa união e essa força mútua e o quanto isso movimenta. Eu acho que a gente mulher é bem fragilizada nesse pensamento. A gente é criada pra não gostar de outra mulher. Eu acho que a gente precisa mudar um pouco isso. Então o ranço do machismo que a gente carrega, que a gente acolha essa mulher e qualquer um que esteja passando por qualquer injustiça, qualquer violência."

Alessandra reforça que, assim como a personagem, é preciso desde o início do relacionamento, ficar atento as atitudes: "Detectar os traços, de que isso pode virar uma agressão, já é na hora do namoro. Quando eu tenho um relacionamento onde eu sou punida por algum comportamento, onde eu sou chantageada por alguma coisa, onde eu tenho esse jogo de sentimentos, eu já tenho que acender essa luzinha amarela. Eu já vou observar isso na época do namoro, do noivado. Se eu tenho um namorado e ele me proibe de usar um certo tipo de roupa, me exclui dos meus relacionamentos sociais, me isola da família, ta o tempo inteiro rebaixando o meu cognitivo, a minha inteligência, eu já preciso estar de olho nesse relacionamento"

"Quando começar a ameaça. Começou a ameaçar, já é o momento da gente parar pra pensar em como está essa relação. Surgiram as primeira ameaças, já está na hora deparar. Agrediu, já está em uma forma aguda desse relacionamento. Nada justifica uma agressão. E a gente precisa ter cuidado, porque o cônjuge é tão manipulador, tão abusador, que ele faz com que a vítima entenda que ela teve culpa, que ela provocou isso. Já na ameaça é pra começar a repensar essa relação. Se está ameaçando e a vítima se sente amedrontada, se sente coagida, já está na hora de tomar alguma atitude e a denúncia vem com a primeira agressão", prosseguiu ela. 

Após a ajuda, Vitória acaba recebendo uma tentativa de retaliação do agressor de Edilene e quase sofre um ataque. Alessandra concorda que isso pode causar medo em outras mulheres que querem ajudar: "Acontece isso não só com familiar, com amigos, até essa retaliação com os profissionais. Existe esse medo..."

Entretanto, ela acredita que mesmo assim as mulheres devem se ajudar: "Eu acho que a vontade de ajudar, de ter empatia... Porque hoje é essa mulher, amanhã pode ser eu, ou a minha filha. Nós precisamos mudar esse conceito de: 'Não se mete a colher na vida do vizinho'. Eu acho que nós devemos sim, nos preocupar com o que acontece ao meu redor, eu sou um indivíduo social, eu preciso interferir de uma forma ética, de uma forma moral na minha sociedade. Nós precisamos nos unir para que essas práticas sejam extintas. Pode ser a longo prazo, mas se começar por um movimento, como houve o da personagem, quem sabe ela não afeta outras pessoas? Eu assisto mulheres no voluntariado que a própria família não dá apoio. Se ela entende que a própria família não apoia ela se acha perdida, ela acha que ninguém mais vai apoiar."

Beatrice vê essa ajuda de mulheres na novela importante e ressalta como, hoje em dia, temos muitos pilares para nos apoiar nesta causa, mas entende que essa ajuda não é igual em todo o país: "As delegacias das mulheres vem pra provar isso, as delegacias que ajudam crianças e adolescentes, que surgiram dentro dessas delegacias das mulheres também vem pra dizer isso. É claro que a gente vive em um país continental, a gente não tem essas políticas públicas em todas as cidades. É claro que eu como Beatrice me questiono o quão eficiente são essas leis, é essa rede de proteção que nos envolve, eu acho que ela não é tão segura assim, ela busca ao máximo nos proteger, mas a gente tem brechas aí de segurança, que ela vai ser abordada na novela, nesta trajetória da Edilene com a Vitória. Nossas leis são incríveis, a lei Maria Da Penha é incrível, mas não temos a nossa disposição toda a estrutura para fazer isso ser eficiente pra gente. É óbvio que eu sei que como pessoa eu tenho que incentivar toda a mulher a sair dessa situação, mas é muito importante que a gente fale qual é o caminho e como fazer pra isso não rapidamente virar contra a gente".

Alessandra concorda e revela que a melhor maneira de ajudar é ouvir quem está falando: "Emprestar a sua escuta é muito bacana. Essa mulher que passa por violência precisa falar, porque entre quatro paredes fica difícil saber o que está acontecendo. Sinalize, fale o que você está passando. E quem pode ajudar? Quem está ao lado. Ouça, não queira impor o seu achismo, ou a sua experiência de vida. Vamos ser um pouco empáticos, vamos ouvir o sofrimento desse indivíduo. Pior coisa que tem é você vir com um sofrimento e quem está ouvindo achar que tem um sofrimento maior, você acaba calando aquela outra pessoa que está querendo falar, está querendo contar a sua dor. Então ouça, empreste uma escuta bacana e auxilie, por mais que você tenha medo do cônjuge. Temos mulheres que sequer tem dinheiro para ir a uma delegacia da mulher, hoje nós temos apoio, em nível nacional, temos a casa da mulher brasileira, onde a mulher não querendo se expor em uma delegacia, ela pode ir em uma dessas casas de apoio e lá ela vai receber todo o auxílio para o que ela está passando."

Vendo essa grande necessidade de fala, Beatrice decidiu conciliar a novela com lives em seu Instagram pessoal, com mulheres que possam falar sobre o assunto: "Essa ideia das lives que a gente teve, vem dessa vontade de disseminar as informações. Toda mulher precisa saber o que existe de lei, o que ela tem ao seu dispor que a protege. Porque a gente vive em uma sociedade completamente machista e sempre abaixando a cabeça, sempre vivendo essa opressão e muitas vezes de acordo com ela. É saber que a gente não precisa aceitar tudo isso. Violência é violência, ninguém precisa sofrer violência de nenhum tipo." A ideia desses encontros ao vivo é falar com delegadas, mulheres que sofreram violência, pessoas que estudam o assunto entre outros para continuar dando visibilidade para o assunto: "A expectativa é que a gente possa dar informação para o maior número de pessoas que a gente puder. Que a gente consiga através dessas informações e do conhecimento ter noção da nossa condição histórica de violência, de discriminassão, de opressão. A gente sofre por ser mulher. Também ver como é potente."

Outro ponto importante a ser pensado é que durante a pandemia, o número de casos cresceu muito devido ao isolamento social: "Os casos de violência doméstica aumentaram com a pandemia por conta do isolamento, dessa intensificação do convívio. Um ar que já era fragilizada, já trazia alguns indícios de abuso, em relação ao outro cônjuge, com o isolamento e essa intensificação do convívio, veio a tona as crises.", declarou Alessandra. "A violência doméstica aumentou muito nesse período, devido ao isolamento que a gente está passando. As mulheres passaram a ficar mais tempo com os agressores, ou por estarem trabalhando remotamente, ou por estarem desempregadas. No caso da Edilene, o namorado dela perdeu o emprego. Eu acho que tem toda tensão que envolve, toda essa violência que envolve a mulher. Poder falar um pouco disso é ajudar através da informação. É o que eu posso fazer enquanto atriz, que interpreta a Edilene nesse momento", reforçou Beatrice. 

A psicóloga falou também da importância de trabalhar o psicológico de uma vítima e reinseri-la no campo social: " A primeira forma que nós temos é acolher essa mulher, fazer ela entender que não teve culpa disso, porque não é raro a gente pegar vitimas que se sentem culpadas. Encorajá-las a quebrar esse silêncio. É difícil você tirar o medo dessa vítima, esse é um dos maiores trabalhos. Porque muitas delas nunca entraram em uma delegacia, nunca viram isso em suas famílias ou meio social. Outras sim, já viviam em lares que existia essa violência doméstica e por isso elas deixam se prolongar por muito tempo. A pergunta clássica é: 'Porque você demorou muito para prestar queixa?' 'Porque demorou muito para tomar providências?' Ora, porque é o marido, é o homem que ela escolheu viver e ter filhos. Outras porque já vem de um arco de violência e nem entendem esse comportamento como violência. Outra é a vergonha social, como nós temos mulheres de convívio social elevados, mulheres com graduação, que se sentem envergonhadas por passarem por isso".

"O lado emocional fica muito abalado, porque não tem um indivíduo que entre em um relacionamento já entendendo que vai passar por isso. Isso gera muita frustração, gera sensação de incapacidade, de fracasso. Pelo lado psicológico a gente vai empoderar, vai tirar esses pensamentos negativos, de desvalor, de desamor, de desamparo, tenta estruturar o indivíduo nessas questões. E mostra pra ela que ela pode! Que ela pode caminhar sozinha, que ela é forte, que ela vai dar conta da sua vida, do seu dia a dia, sem necessidade de ter esse companheiro ao lado, ou qualquer outra pessoa", continua ela. 

Por fim, Alessandra reafirma: "Hoje, por conta dessa sororidade, nós temos muitos serviços de ajuda, até pelo aumento do feminicídio, até como o aumento dessas agressões por conta dessa pandemia. Hoje nós temos várias vias dessa mulher pedir ajuda. Eu costumo me oferecer como uma voz pra essas mulheres. Eu ofereço uma parte da minha profissão de psicóloga pra dar voz pra essa mulher, pra dizer que ela é capaz de sair disso. E como nós vamos acabar com isso? Falando! Falando que tem jeito, que tem como denunciar. Eu costumo dizer que eu fiz esse trajeto sozinha, mas aquelas que eu preto assistência não estão sozinhas".

Último acesso: 15 May 2021 - 03:10:41 (384983).

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