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O desabafo de Antonia Fontenelle na Ilha: 'A minha história é punk'

Viúva de Marcos Paulo, a atriz Antonia Fontenelle fala pela primeira vez da briga na justiça e de como venceu a dor e saiu dos escombros

Redação Publicado em 05/03/2013, às 12h27 - Atualizado em 19/03/2020, às 13h01

Em Angra, a atriz revela como enfrenta a saudade e os problemas gerados após a morte de Marcos, em novembro. Camisa em homenagem ao amado. - Cesar Alves
Em Angra, a atriz revela como enfrenta a saudade e os problemas gerados após a morte de Marcos, em novembro. Camisa em homenagem ao amado. - Cesar Alves

Quatro meses após a morte do marido, o ator e diretor Marcos Paulo, Antonia Fontenelle (39) confessa na Ilha de CARAS que ainda não é fácil lidar com a ausência. “Digo que saí dos escombros e estou vivendo, respirando”, afirma, sem esconder que os primeiros 30 dias foram devastadores. A atriz ficou sem vontade de sair de casa e de se alimentar, a um passo da depressão. “Não queria ver ninguém. Fiquei magra demais, parecia uma anoréxica”, lembra. Mas não foi apenas o sentimento de dor e saudade que provocou sofrimento. Ela admite estar surpresa com a postura das herdeiras de Marcos: as filhas Vanessa (42) e Marian (31), das uniões com Tina Serina e Renata Sorrah (65), e de Flávia Alessandra (38), ex-mulher e representante de Giulia (12), caçula dele. Antonia diz, por exemplo, que até hoje não sabe o que aconteceu com as cinzas do marido. “Lamento não poder cumprir a promessa que fiz a ele, de jogá-las no mar, como me pediu”, revela a atriz, que não compreende também por que elas optaram por travar uma briga judicial. “Quando Marcos morreu, mandei um e-mail e falei para a gente conversar. Não queria animosidade. Não há nada da vida do Marcos que eu não saiba. Me subestimaram e ignoraram. E tudo poderia ser tão fácil”, desabafa. Mas com fé e a força dos amigos e do filho, Samuel (16), ela vem conseguindo deixar em segundo plano os aborrecimentos e se sente mais forte e animada para tocar a vida. Às vésperas de fazer 40 anos, em 19 de abril, festeja o sucesso em Balacobacoa inauguração do Centro de Acolhimento Marcos Paulo, no Rio, e a retomada do longa Sequestrados, projeto de ambos que ela vai levar à frente: “Não adiantou as filhas dele bloquearem a empresa. Os direitos são meus e realizarei o filme. É questão de honra.”

– Como vai conseguir rodar o filme sem os recursos?

– Estava captando e já havia um dinheiro para entrar no fim do ano passado. Como as herdeiras do Marcos bloquearam a empresa, não tive condições de continuar com esse processo. Tinha pedido que me deixassem com a empresa porque a Ancine havia autorizado a captação de 12 milhões. Ela não dá dinheiro, apenas autoriza a buscá-lo. Acho que isso não foi entendido. Bloquearam achando que tinha dinheiro na conta.

– E como fará agora?

– Posso fazer o filme com quem eu quiser. Vou trabalhar com a produtora de Daniel Filho, mas a concepção continua igual, como Marcos idealizou.

– No Twitter já a chamaram de viúva negra. O que acha?

– Não matei dois maridos. (risos) Sou viúva do Marcos Paulo. Já estava separada do Fernando, pai do meu filho, quando ele morreu.

– Como Samuel vê as perdas?

– Ele me diz que só tem a mim. E é verdade. Sempre sentiu falta da figura paterna. Quando rompi, Fernando ficou ausente por infantilidade, mas sempre fui amiga dele. Samuel gostou muito do meu segundo marido, mas após a separação, ele se desligou do menino. E quando conheci Marcos, meu filho ia fazer 11 anos, estava meio escaldado. Já tinha perdido um pai, um padrasto... Marcos também tinha um medo parecido.

– Como era a relação deles?

– Marcos nunca foi pai, muito menos de um menino. A Vanessa ele não criou. Com Mariana e a Giulia, antes de completarem 2 anos, ele já não morava na mesma casa. Então, nunca criou um filho. Não sabia lidar com isso. Mas tinha uma relação de respeito com Samuel. Os dois conversavam muito sobre blues e jazz. Não eram pai e filho porque nenhum dos dois queria. E eu entendia. Era como eu e Giulia, convivência de amizade. Adoro ela e tenho certeza de que ela gosta de mim.

– Marcos foi seu grande amor?

– Olha, foi o terceiro casamento. Nunca fui namoradeira, sou casamenteira. (risos) Marcos fará parte da minha vida para sempre. Os anos vão passar e sempre vão lembrar que fui sua mulher. Foi um grande amor. Os amigos dele, que hoje estão me apoiando, sabem do valor que tive.

– E qual a importância que ele teve para você?

– Nossa, total. Foi um anjo. Se não tivesse passado na minha vida, não sei se hoje saberiam quem é Antonia. Também provavelmente não teria a oportunidade de fazer as parcerias que hoje faço.

– Já vivenciou alguma experiência espiritual com Marcos?

– Perguntei para o Carlos Vereza, que é espírita, por que não sonho com ele. Ele me tranquilizou, disse que Marcos está do meu lado. Sinto leveza, bem-estar. A sensação é que está muito bem.

– Como adotou o espiritismo?

– Quando Fernando morreu, queria entender por que fizeram isso com ele. Busquei respostas. Comecei a sentir uma dor de cabeça grande, não tinha remédio que desse jeito. Fui a um centro espírita e descobri que o pai do meu filho estava revoltado porque havia sido assassinado. E ficava colado em mim. Fiz um tratamento espiritual. Fiquei meses sem comer carne e beber café. Passei então a simpatizar muito com o espiritismo. Quando Marcos estava muito mal, visitava o Lar de Frei Luiz e rezava. Certo dia ele não conseguia comer, seu esôfago estava absolutamente queimado. Bebia água em gotas. Quando voltei, estava sentado na sala, tomando canja e assistindo à TV. Ele não me acompanhava, mas acreditava.

– Você ainda chora?

– Sim, mas estava definhando, perdi 3 quilos. Precisava tocar o barco. Voltei a malhar e aos poucos a ter fome de novo. Estou me recuperando fisicamente.

– E emocionalmente?

– Vai demorar. Não tenho problema em chorar ou sorrir. Vivo o que tenho para viver. Sempre fui assim. Às vezes, ficava no vermelho por causa de um projeto, e ele perguntava se poderia me ajudar, mas nunca aceitei seu dinheiro, apesar de termos sido marido e mulher.

– Vocês discutiam?

– Sim. Mas as diferenças nos uniam. Ele passou a me admirar justamente porque tinha opiniões diferentes e mostrava. As pessoas tratavam Marcos como o diretor, o galã que não tinha problema nenhum. Ele andava com um escudo se protegendo e consegui mudar isso, pelo menos comigo.

– Os problemas na Justiça com as filhas do Marcos a abalaram?

– Com certeza. Sou a companheira que ele escolheu, nunca dei motivo nenhum para desabonar sua moral. Então, não vou permitir que ninguém tripudie do Marcos e de mim. Respeito é bom e exijo. A cada dia é provado que estou fazendo a coisa certa. Mas não tenho a menor mágoa de nenhuma delas, apenas fiquei surpresa. São pessoas que não precisam, bem-sucedidas. Uma das coisas que me deixaram mais triste foi terem fechado o apartamento onde morávamos juntos. E só soube disso por uma das funcionárias. Tinha coisas minhas lá. Elas não podiam telefonar, como faziam para outros assuntos, e avisar que trocariam a fechadura? Na inauguração do Centro de Acolhimento que leva o nome dele, fui sozinha. Seria tão bacana se estivessem as filhas. Acho que Marcos merecia isso. Ele foi um bom pai, não deixou que faltasse nada para elas.

– E carinho?

– Ele dava quando podia. Na verdade, como é possível dar carinho se você procura e não tem feedback? Fica difícil, né? Ele era doido pela Giulia.

– Marcos era ciumento e falava da sua beleza. Tem consciência disso aos 40 anos?

– Sim. Não engordo e nem tenho celulite. (risos) Estou com 52kg, no auge da minha gostosura, e tenho 1,67m.

– Você falou no nome do Marcos inúmeras vezes. Não tem espaço para outro homem?

– No momento, não mesmo. Mas nunca programei. Minha história com Marcos começou assim, quando ele me viu na praça de alimentação do Projac. Uma colega falou que ele parou tudo o que estava fazendo para me olhar. E quando o encarei, me deu um sorrisinho de canto de boca. Na hora, pensei, meu Deus, esse homem é gato demais! Mas não era fã. Só que um mês depois já estava apaixonada. Não fico procurando, não tenho ninguém em mente e estou em paz, apesar de todas as coisas desagradáveis. Deus deve me ver como o Popeye, o Incrível Hulk, porque encaro cada porrada...

– Você se arrepende de algo?

– Não mudaria nada. Mas um dia, quando tiver uns 50 anos, conto tudo em um filme porque minha história é punk.