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Retrospectiva da década

Redação Publicado em 10/05/2011, às 16h42 - Atualizado às 18h24

Lady Gaga - Getty Images
Lady Gaga - Getty Images
No início da década passada, quando dois aviões cruzaram os céus de Nova York e bateram nas Torres Gêmeas, a história mudou seu rumo. Com o ataque terrorista aos Estados Unidos em 2001, fomos atirados para fora da nossa zona de conforto. E com a moda não foi diferente. "Antes, a moda estava mais rígida, mais austera, meio punk e gótica", diz João Braga, professor e historiador de moda. "Nesse momento, o romantismo ressurge, porque o mundo pedia mais paz e tranquilidade", completa. A dupla de estilistas holandeses Viktor Horsting e Rolf Snoeren, da marca conceitual Viktor & Rolf, ilustra bem a transformação. O desfi le anterior à queda das Torres Gêmeas era todo preto, já o seguinte foi imaculadamente branco. "Todos os elementos culturais desenvolvidos pelas sociedades, das artes à economia, incluindo a moda, interagem e influenciam uns aos outros", diz Simone Rech, consultora de moda. Provavelmente, a melhor maneira de entender a moda é estudar sociologia e antropologia. Afinal, é o Homem que faz a moda. E o Homem do século 20 já estava mergulhado na internet. Em 2005, Scott Schuman e seu blog The Sartorialist apareceram na rede, consagraram o street style e abriram caminho para outros fashion blogs. "Schuman consagra a moda de rua como algo que não é só para jovens e revolucionários. Ele olha, sem preconceito, para todos e tudo, encontra elegância e composições surpreendentes em pessoas de todo tipo", diz Patrícia Sant'Anna, professora de moda da Universidade Anhembi Morumbi. E a partir daí, uma grande quantidade de blogs passou a fazer o mesmo, e se transformaram em um ótimo indicador de tendências. Surgiram as redes sociais como Orkut, Facebook e Twitter. Ficou mais fácil encontrar os grupos de interesse na rede. Os sites de compra ganharam destaque e aproximaram as marcas tradicionais do público. Como a internet, a moda também ganhou uma velocidade ainda maior do que já tinha, com novas coleções chegando às lojas em poucos dias. "E em resposta ao fast-fashion, as marcas tradicionais inventaram a coleção Cruise, lançada entre as estações principais", explica Gloria Kalil, consultora de moda. A globalização e a difusão da informação também aboliram as estações. "Grandes grifes vendem em todos os hemisférios", diz Gloria. "Se você olhar nos desfiles, vai perceber que embaixo de todo mantô de pele tem um vestido de alcinha". Ninguém quer perder um pedaço do mundo.Tamanha velocidade foi um choque para a indústria têxtil, que também precisou se adaptar para atender a demanda. E a alta velocidade veio para ficar. A internet lançou artistas como Franz Ferdinand, Fresno, Fall Out Boy e Restart, que influenciaram a moda urbana e "disseminaram a calça skinny, os óculos estilo nerd, as saias rodadas, os sapatos peep toes, as peças listradas, quadriculadas e coloridas e o tênis All Star", diz Simone. Até mesmo a figura feminina moderna, tecnológica, elegante e independente, que começou a ser moldada pela estilista francesa Isabel Marant, ganhou espaço. O mesmo aconteceu com Nicolas Ghesquière e sua mulher-senhora-de-suas-roupas e não escrava delas. "No universo das tendências, é sempre é difícil olhar para trás e analisar o que aconteceu, porque nosso trabalho é muito focado no futuro", diz Aki Choklat, estilista e professor da Polimoda Fashion School, da Itália. A moda, e principalmente a alta-costura, é um espaço de experimentação, crítica e fantasia. E de vendas! Sendo assim, por mais que seja arriscado julgar o passado e prever o futuro, é possível apostar na continuação de duas grandes tendências da última década: a sustentabilidade e o fast-fashion. "Com a crise, a moda como objeto de consumo foi colocada em cheque", diz Natalie Oliff son, consultora de moda. O fast-fashion vem na esteira desse questionamento e democratiza a moda. Já o ser sustentável, que era mais um modismo, envolverá aspectos sociais, econômicos, culturais e, claro, ecológicos. O slogan da vez é "global fashion, local tradition". Em bom português, a moda é global, mas as tradições são locais. No Brasil, Lino Villaventura e Ronaldo Fraga se destacam ao usar referências regionais e muita brasilidade nos bordados. Aliás, essa questão da individualidade, da subjetividade, da moda artesanal e autoral, ganhou espaço e não deve desaparecer tão cedo. A tendência é que a criatividade seja mais aclamada do que a reinterpretação. Nessa onda, os holofotes se viram para o luxo, que fi ca cada vez mais exclusivo para fugir da popularização. Para continuar em alta, ele deve se revitalizar. É preciso sangue novo em antigas maisons. O conceito de revitalização que a Chanel adotou ainda na década de 1980, ao contratar o alemão Karl Lagerfeld como diretor criativo, ganha corpo nos anos 1990 com John Galliano e Alexander McQueen na Dior e na Givenchy, respectivamente. E o americano Tom Ford no comando criativo da Yves Saint laurent no ano 2000. Aliada à globalização, essa mistura de culturas segue forte. Hoje, o norueguês Peter Dundas comanda a criação da italiana Pucci , o brasileiro Francisco Costa é diretor criativo da Calvin Klein e o indiano Manish Arora traz de volta à cena a francesa Paco Rabanne. A saída de cena de três nomes fundamentais da moda na última década também teve impacto. Em 2007, Gianfranco Ferrè, o "arquiteto da moda", morre em Milão. Em 2008, falece Yves Saint Laurent, um dos mais conhecidos e influentes estilistas da segunda metade do século 20. E em 2010, Alexander McQueen se suicida. "Os três trouxeram o sonho de volta à realidade da moda", afirma Braga. A partir de agora, eles se tornam pontos de referência e inspiração. McQueen ganhou uma exposição em Nova York, no Metropolitan Museum of Art, e Yves Saint Laurent, no Grand Palais, em Paris. Esse tipo de exposição, inclusive, tem sido muito usada na Ásia para tornar as marcas conhecidas e desejadas pelos compradores asiáticos. O Oriente, além de zen, passou a ser fashion. E consumista. E pensar em milhares de chineses compradores é apenas uma maneira de enxergar o atual momento exagerado da moda. A marca francesa Thierry Mugler, por exemplo, apresentou sua coleção outono/inverno em janeiro de 2011, em Paris, e causou polêmica ao inspirar-se no canadense Rick Genest. Mais conhecido como 'o homem esqueleto', ele tem o corpo completamente tatuado, inclusive o rosto e a cabeça, de maneira a deixá-lo parecido com um esqueleto. O diretor criativo por trás desse desfile hocante é Nicola Formichetti, o stylist da também controversa cantora Lady Gaga, que usou um vestido de carne numa entrega de prêmio em 2010. No mesmo ano, a transexual brasileira Lea T. transformou-se na face da Givenchy. Consagrada, em 2011 foi até entrevistada por Oprah Winfrey, nos Estados Unidos. O modelo andrógino sérvio Andrej Pejic também fez sucesso e encantou o mundo da moda. Difícil é dizer se ele é homem ou mulher durante os desfi les. Campanhas publicitárias e ensaios fotográficos transgressores também têm recheado as páginas das revistas. "Historicamente, os excessos são sinais de decadência", diz Braga ao citar Roma e os imperadores franceses. Nessa hora, os valores são revistos. "A moda se reinterpreta e se faz novamente com os opostos". O show, de fato, deve O show, de fato, deve continuar. Apesar da velocidade, da obsessão por lucros e da falta de privacidade, a roda não para. E o que assistimos agora é a demolição de alguns ícones que não resistiram à pressão. Ou talvez, que tenham apenas deixado transparecer seu lado falível. Parece que estamos diante de um divisor de águas, de uma encruzilhada. John Galliano foi demitido da Dior depois de 15 anos e inúmeros desfiles memoráveis por ter sido acusado de antissemitismo. Alegando tolerância zero diante de atitudes como essa, a maison não poderia admitir tamanha publicidade negativa. Mesmo a vanguardista alta-costura avalia seus riscos. Para sobreviver nesse mercado, mesmo marcas tradicionais de luxo precisam crescer. E, na maior parte dos casos, isso signifi ca ser incorporado por um grupo maior. Grandes conglomerados de luxo, como Richemont, LVMH e PPR, compram grandes nomes do segmento. A mais recente foi a compra da joalheria italiana Bulgari pela LVMH. "Atualmente, não dá para ficar pequeno", diz Marta Kasznar Feghali, coordenadora do curso de moda da Universidade Veiga de Almeida, no Rio de Janeiro. Se é preciso oferecer novidades a todo instante, é preciso se diferenciar e criar. "E para criar, o designer não pode estar ligado aos pagamentos, às contratações". Como o mundo não dá sinais de desaceleração, ninguém duvida que os grandes grupos vão seguir em destaque. No Brasil muito foi feito na última década. Mas é preciso dar continuidade a esse processo. A moda ganhou políticas públicas federais e transformou-se em um produto associado à marca Brasil. Ainda no Governo Lula, o Ministério da Cultura, em conjunto com o Ministério da Fazenda, passou a trabalhar a valorização da moda como uma expressão cultural. Percebeu-se que ganhamos mais vendendo uma mercadoria reconhecida e com maior valor agregado. Mas o caminho não é fácil. "O Brasil está na moda, mas a moda brasileira não", diz Gloria Kalil. "Torço para que o setor saiba aproveitar essa oportunidade", completa. São poucos os nomes nacionais de destaque no exterior. Havaianas, Carlos Miele, Alexandre Herchcovitch e Pedro Lourenço ainda são exceções. "Antes, vivíamos protegidos numa bolha, mas agora que as marcas nacionais estão lado a lado com as estrangeiras, veremos o que vai acontecer", pondera Natalie Oliffson. Até 2021, conheceremos as respostas.