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Crítico da CARAS elogia Jimmy Kimmel no Oscar 2017: "Soube tirar de letra um erro histórico"

"A cerimônia deste ano teve no apresentador um grande acerto: Piadas foram pontuais e funcionais", disse Cassio Delmanto

Cassio Delmanto* Publicado em 27/02/2017, às 06h03 - Atualizado às 09h57

Kimmy Kimmel apresenta o Oscar 2017 - Getty Images
Kimmy Kimmel apresenta o Oscar 2017 - Getty Images

Não há negócio como o show business”, já cantou Ethel Merman na lendária canção de Irving Berlin. E assim como neste antigo standard, a cerimônia de entrega do prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, cuja estatueta é carinhosamente apelidada de Oscar, é uma extraordinária e incontroversa celebração da própria indústria do cinema.

Ao contrário de premiações como o Globo de Ouro, que é entregue pela Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood, da qual faz parte a brasileira Ana Maria Bahiana, e do Critic’s Choice Awards, que como seu nome induz, é entregue por críticos, o Oscar é um prêmio da indústria, entregue por membros da indústria. São mais de 6 mil votantes, incluindo atores, diretores, roteiristas, bem como toda gama de profissionais responsáveis pela produção de filmes.

Desta forma, é possível pensar que não existia mistério algum em saber que o grande vencedor da noite seria o musical La La Land - Cantando Estações (2016), um filme que retrata a mais sincera e pura homenagem à própria indústria do cinema, e que vinha faturando todas as premiações pela qual passava.

Ah, mas como estávamos enganados. O filme do jovem cineasta Damien Chazelle não somente perdeu a estatueta de Melhor Filme para o drama Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016), como ainda o perdeu de uma forma, no mínimo, desagradável: numa confusão que ainda resta ser devidamente explicada, os lendários atores Warren Beatty e Faye Dunaway, dupla que atuou junta no clássico Bonnie & Clyde: Uma Rajada de Balas (1967), acabou anunciando La La Land como Melhor Filme, para apenas segundos depois serem repreendidos pela produção do programa, revelando Moonlight como o real vencedor da noite.

Exatamente o mesmo erro que ganhou repercussão mundial quando ocorreu na cerimônia do Miss Universo, em 2015. E assim como naquela ocasião, os produtores de La La Land, unidos também por parte do elenco e da equipe do filme, já estavam no palco, com estatuetas em mão, agradecendo pelo prêmio. Uma vergonha.

Tirado o choque, entretanto, La La Land ainda tem motivos de sobra para comemorar. O filme pode não ter feito a rapa e levado todas as categorias em que foi indicado (14 indicações no total, incluindo duas para canção), mas terminou a noite com os prêmios de Melhor Diretor para Chazelle, que aos 32 anos se tornou o mais jovem a já ganhar na categoria, Melhor Atriz para a carismática Emma Stona, Melhor Fotografia, Design de Produção, Trilha Sonora e Melhor Canção. Mais troféus que qualquer outro filme indicado ontem.

O próprio Moonlight, por comparação, saiu apenas com mais dois troféus, de Melhor Roteiro Adaptado e de Melhor Ator Coadjuvante para o ótimo Mahershala Ali, o eterno Remy Danton do seriado House of Cards (Netflix). E se parece inconsistente que o Melhor Filme do ano tenha saído com tão escassa vitória, basta lembrar que Spotlight (2015), vencedor do prêmio no ano passado, levou somente mais um para Roteiro Original.

+ Veja a lista completa com os ganhadores do Oscar 2017

Já o Oscar de Melhor Roteiro Original foi entregue, de forma justíssima, para Manchester à Beira-Mar (2016), um 'belissimamente' executado estudo de personagem, que tem em seu texto, e na inspirada atuação de Casey Affleck, suas grandes qualidades.

Casey Affleck, por sinal, que eternamente será identificado como ‘o irmão do Ben Affleck’, levou merecidamente o prêmio de Melhor Ator pelo papel, no que foi indiscutivelmente uma entrega intensa e absoluta para compor um personagem que já não mais possui qualquer amor pela vida.

Mas talvez existam alguns que digam que a estatueta deveria ter ido para Denzel Washington, um ator tão renomado que já possui dois Oscars de atuação. E é fácil entender o motivo. Como o desagradável Troy Maxson, de Um Limite Entre Nós (2016), Washington entrega uma interpretação genuína e multifacetada, reflexo tanto de sua qualidade como ator, como pelo fato de já ter interpretado este mesmo texto na Broadway. O filme em si é uma grande ‘peça de teatro filmada’, e jamais tenta esconder isso.

Enfim, ao menos a exuberante Viola Davis fez justiça pelo filme, e levou aquele que talvez seja o mais merecido prêmio da noite. Ao lado de Washington, Viola se entrega de corpo e alma ao dar vida à Rose, uma mulher que sofre ao lidar com as inconsistências de seu marido, e que a levam a um monólogo de arrepiar, que injustamente é lembrado pelo fato de a atriz ter mantido o catarro escorrendo de seu nariz durante a cena. Uma sutileza que apenas reforça o poder de sua entrega.

Entretanto, vale reforçar que é um tanto quanto evidente que Davis deveria mesmo ter sido indicada à categoria de Melhor Atriz. O fato de terem emplacado sua candidatura como Atriz Coadjuvante apenas demonstra como detalhes são vitais na corrida ao Oscar. Afinal, além de ter concorrido junto da vencedora Emma Stone, Viola teria enfrentado também Isabelle Huppert, incontroversamente dona de uma atuação irretocável por Elle (2016), que lhe rendeu o Globo de Ouro.

Melhor figurino ficou para Animais Fantásticos e Onde Habitam (2016), filme derivado do universo da saga Harry Potter, e que com certeza fez a alegria de uma infinidade de fãs do bruxinho britânico, cujos filmes jamais emplacaram em premiações.

Boas surpresas, também, foram as vitórias de Até o Último Homem (2016), filme que marcou o grande retorno de Mel Gibson a Hollywood, após as polêmicas pela qual o cineasta se envolveu nos últimos anos, nas categorias de Melhor Edição e Mixagem de Som.

Melhor Animação ficou com Zootopia (2016), a deliciosa comédia envolvendo animais que traz um belo subtexto de discussões sobre preconceito e segregação racial. E Piper, como não poderia ser diferente, levou Melhor Curta de Animação, com sua mensagem bonita e poética de como devemos encarar nossos medos sob diferentes ângulos para poder superá-los. A Disney, merecidamente, ainda é um Ás no mundo do encantamento.

Outra barbada foi a vitória de Mogli: O Menino Lobo, na categoria de Melhores Efeitos Visuais. Curioso mesmo só o fato do filme ser considerado um ‘live-action’, já que praticamente é inteiro digital.

E já que partimos da ironia, a maior de todas é a vitória de Melhor Maquiagem para o péssimo Esquadrão Suicida (2016), um filme totalmente fora de tom devido a inesgotáveis mudanças em sua estrutura após o fracasso de Batman Vs. Superman. Apesar de que a maquiagem de Esquadrão é realmente sua única qualidade.

Melhor Edição de Som ficou com A Chegada, um filme adorado por muitos, mas vítima do maior absurdo deste ano: a não indicação de Amy Adams na categoria de Melhor Atriz.

E embora as críticas ao presidente Donald Trump tenham se restringido mais às piadas do apresentador Jimmy Kimmel, a vitória do iraniano O Apartamento como Melhor Filme Estrangeiro já falou mais do que qualquer discurso poderia, uma vez que o diretor do filme, Asghar Farhadi, foi um dos prejudicados pelo reprovável decreto de Trump que visava barrar imigrantes de sete países de entrar nos Estados Unidos.

Uma pena somente que esta vitória, embora importante politicamente, tenha deixado de fora o grande favorito da categoria, o filme alemão Toni Erdmann.

Completando a lista de vencedores, tivemos a estatueta de Melhor Documentário para O.J. Made In America, sobre o infame jogador O.J. Simpson, que foi julgado e absolvido pelo assassinato de sua ex-mulher e um amigo; Melhor Documentário em Curta-Metragem para The White Helmets; e por fim, Melhor Curta-Metragem para Sing.

JIMMY KIMMEL: UM GRANDE ACERTO

Mas além das estatuetas, como programa televisivo, a cerimônia deste ano teve no apresentador Jimmy Kimmel um grande acerto. Pupilo assumido do já aposentado David Letterman, suas piadas foram pontuais e funcionais, e gags como os doces que eram jogados do teto do teatro com pequenos paraquedas cativaram pela simpatia, assim como levantar o carismático jovem ator Sunny Pawar, de Lion: Uma Jornada para Casa, recriando a clássica cena do desenho O Rei Leão (1994).

Mas seu grande destaque, sem dúvida, foi levar ao teatro do Oscar um grupo de turistas que não sabiam que entrariam ali. A surpresa dessas pessoas, e suas interações com os artistas sentados na plateia, foram tão hilárias, que esses momentos serão lembrados daqui alguns anos tanto quanto a famosa ‘selfie da Ellen DeGeneres’.

E importantíssimo apontar que, na hora mais instável da noite, quando o infame erro no anúncio do Melhor Filme ocorreu, Kimmel soube tirar de letra esse erro histórico, emendando reações e piadas tão casuais, que parecia que tudo havia sido ensaiado. Sua reação foi tão fluída quanto a do apresentador David Niven, no lendário Oscar de 1974, quando uma pessoa pelada invadiu o palco da premiação.

No final das contas, a única coisa realmente indiscutível de qualquer cerimônia do Oscar é o fato de que ela sempre termina com mais perdedores do que vencedores. Esta é a pura realidade. Mas talvez seja justamente esta proporção a responsável por dar aquele senso de realização ao se vencer, que é capaz de alimentar sonhos e impulsionar carreiras. Uma pena, apenas, que este ano alguns tiveram que ganhar para logo em seguida perder.

Já cantava Ethel Merman, naquela mesma canção, “não há pessoas como aquelas no show business, elas sorriem quando estão por baixo”. É o que resta.

*Colaboração para a CARAS Digital