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Bebê / Anuário

BEBÊ: Manda um little kiss para a titia

Aprender línguas estrangeiras ainda na infância é mais fácil e pode trazer benefícios para o desenvolvimento da criança. Mas cuidado com os excessos

Redação Publicado em 20/09/2012, às 10h09

Esponja de conhecimento - Nos primeiros anos de vida, o cérebro da criança está mais apto a formar novas conexões ao ser exposto a uma segunda língua - Anuário do Bebê
Esponja de conhecimento - Nos primeiros anos de vida, o cérebro da criança está mais apto a formar novas conexões ao ser exposto a uma segunda língua - Anuário do Bebê

Nos dias de hoje, falar mais de uma língua não é uma escolha e sim uma necessidade. E, por isso, é cada vez mais comum as crianças serem expostas a ambientes bilíngues ainda bebês. E, apesar da máxima
“quanto mais cedo, melhor” aplicar-se ao aprendizado de uma segunda língua, ainda há muitas questões sobre o tema. Entre as dúvidas comuns estão qual língua deve ser usada para conversar com os pequenos em casa, se o aprendizado de dois idiomas ao mesmo tempo não causará confusão e, mais frequentemente, se o bilinguismo não irá atrasar o desenvolvimento da fala e da linguagem.

“Até o momento, não existem evidências científicas de que o bilinguismo pode ocasionar atraso no desenvolvimento da linguagem”, diz Elisabete Giusti, fonoaudióloga especialista em linguagem infantil. Os pais podem criar oportunidades para estimular a aprendizagem de outras línguas, mas de forma natural, tranquila e incentivadora, porque a ansiedade e a cobrança excessivas podem “travar” a criança. É a pressão que atrapalha e não necessariamente o bilinguismo em si. “Quem possui predisposição para apresentar um transtorno para o desenvolvimento da linguagem, manifestará essas dificuldades independentemente de quais e quantas línguas são utilizadas”, adianta Elisabete.

O que já se sabe é que quanto mais cedo acontecer a exposição, maior poderá ser o domínio do idioma pela criança. “Estudos comparando a atividade cerebral de crianças monolíngues e bilíngues mostram que as áreas cerebrais da linguagem se sobrepõem em crianças bilíngues”, diz Elisabete. “No caso dos adultos, são ativadas áreas diferentes”, afirma. Isso acontece porque o cérebro dos pequenos é um verdadeiro mar de possibilidades. Eles estão formando suas sinapses, uma espécie de ponte entre os neurônios que dará origem à chamada rede neural, responsável pela comunicação entre as células nervosas. Bons estímulos, portanto, contribuem para formar mais circuitos cerebrais e aperfeiçoar essas ligações. As chamadas janelas cerebrais estão completamente abertas a novos tipos de conhecimento.

“Apesar de hoje já se saber que, ao contrário do que se imaginava, os adultos também podem desenvolver novos neurônios, o conceito de plasticidade cerebral, a capacidade de reorganização do cérebro, é muito mais dinâmico nos pequenos”, diz Egeu Bosse, neurologista da infância e da adolescência do Hospital São Camilo Pompeia. Uma segunda língua, música, esportes, tudo pode ser bem-vindo. Mas, nessa fase do aprendizado, a questão da recompensa é muito importante. É por isso que não aprendemos tudo o que nos ensinam, mas sim tudo o que nos dá prazer. “Guardamos aquilo que nós gostamos”, diz Egeu. Os pais podem criar oportunidades para estimular a aprendizagem de outras línguas, por exemplo, com histórias infantis, músicas, jogos, brincadeiras, filmes e viagens.

Uma criança pode aprender uma segunda língua simultaneamente à aquisição de sua língua materna ou nativa, o que acontece até os 3 anos, ou por aquisição sucessiva com o ingresso numa escola bilíngue. “Antes do primeiro ano, a criança ainda é bem não verbal”, comenta Antônio Carlos de Farias, neuropediatra do hospital Pequeno Príncipe. “Ela é muito mais receptora do que emissora e ouvir letras de música aumenta o vocabulário”, diz. Aliás, ouvir músicas é uma boa forma de estimular o desenvolvimento da linguagem em qualquer idioma. “Todo tipo de estimulação é adequado desde que respeite a prontidão neurológica da criança”, diz Antônio Carlos. Sua recomendação, no entanto, é que no caso das línguas estrangeiras, os pequenos sejam alfabetizados, primeiro, na língua mãe. “Há uma confusão entre linguagem falada e escrita”, diz. “É ótimo expor as crianças à primeira, mas é bom tomar cuidado em relação à segunda”, acrescenta. É interessante ter cautela com quem ainda fala como o Cebolinha, trocando os Rs pelo L, por exemplo, ou demora um pouco mais para ter vocabulário. Há sim marcos de desenvolvimento, onde certos desempenhos são esperados, e quando isso não acontece é melhor procurar ajuda profissional.

Segundo algumas pesquisas, entre as vantagens do bilinguismo estão a maior flexibilidade cognitiva, mais habilidade para aprender novas palavras e distinguir informações relevantes de irrelevantes e o aumento da capacidade de processamento da linguagem.

Independentemente do idioma, um ambiente linguístico favorável é fundamental. E vale lembrar que é comum as crianças “misturarem” as línguas durante uma conversa, dizendo, por exemplo, “mãe, quero aquela blusa purple”. Isso é normal e faz parte do processo. Em qualquer língua, bons incentivos melhoram a compreensão, a expressão, o conhecimento geral e a criatividade.

O poder da música

A música acalma os bebês, mas pesquisas indicam que a exposição precoce a ritmos, tons e timbres diferentes pode ser mais poderosa do que um simples calmante. Áreas cerebrais específicas ligadas à coordenação motora, audição e atenção se desenvolveram mais em crianças com média de 6 anos que tiveram aulas de piano por 15 meses, em comparação ao grupo que apenas ouviu música, cantou e teve contato com instrumentos de percussão. Aprendendo música, por exemplo, os pequenos desenvolvem uma melhor habilidade com os dedos, o que no futuro poderá significar maior velocidade para digitar. Ou, ao aprender a tocar um instrumento, o que leva tempo, eles tendem a ser tornar mais pacientes e flexíveis. A prática musical também faz com que o cérebro funcione “em rede”, de forma multissensorial. Afinal, é preciso ler a partitura, compreendê-la, posicionar a mão corretamente para tocar uma nota e ouvir a própria música. Trata-se de uma verdadeira ginástica cerebral. Assim como as atividades físicas fortalecem os músculos, o treinamento musical estimula o cérebro.

Desenvolvimento da linguagem

A aquisição e o desenvolvimento da fala e da linguagem ocorrem em fases. Ao nascer, a criança chora para dizer que está suja, com dor ou com fome. Sorri, olha e vocaliza quando falam ou brincam com ela. Depois,
começa a balbuciar, repete sons e sílabas. Aponta, imita. O aparecimento da fala, entre um e dois anos, é um dos grandes marcos do desenvolvimento. Com cerca de um ano de idade, aparecem as primeiras palavras e onomatopeias (“auau” e “miau”). As frases vão se tornando maiores e, aos dois anos, os pequenos são capazes de recontar histórias e cantar. Aos 4 vêm as perguntas, aos 5 já sabem mais de 6 mil palavras e, aos 6, falam a maioria dos sons da fala, podem manter uma conversa e escrever palavras.