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Atualidades / MATERNIDADE

Tia Má confessa medos na criação dos filhos em um ambiente permeado por questões estruturais

Em entrevista à CARAS Brasil, a influenciadora digital Tia Má fala da nova fase como atriz e revela inseguranças como mãe de duas crianças pretas

Maíra Azevedo, Tia Má, com os filhos Aladê Koman e Ayanna Luiza - Reprodução/Instagram
Maíra Azevedo, Tia Má, com os filhos Aladê Koman e Ayanna Luiza - Reprodução/Instagram

Maíra Azevedo (43), a popular Tia Má, está em contagem regressiva para a estreia da primeira temporada da série de comédia Toda Família Tem, cuja data foi anunciada nessa terça-feira, 28, pela Prime Video: 12 de julho. Em entrevista à CARAS Brasil, a atriz, jornalista e influenciadora digital fala da expectativa para o novo trabalho, maternidade e a complexidade de educar um jovem preto em um ambiente permeado por questões estruturais, e de ter se tornado referência nas redes sociais por promover discussões importantes voltadas à causas raciais. 

Quem é fã e seguidor de Tia Má no Instagram, por exemplo, logo de cara vê o quanto ela é uma mãezona. A influenciadora costuma compartilhar sua rotina com os filhos, Aladê Koman (16) e Ayanna Luiza (4). Ela conta como concilia maternidade e carreira. “Tenho consciência que várias mulheres, assim como eu, precisam se desmembrar em várias para poder dar conta de tanta coisa, da vida pessoal, da vida profissional, de ser mãe, de ser filha, ainda mais nessa geração que estou, que cuida dos pais, cuidando também dos filhos”, conta.

E continua: “Então, eu, muitas vezes, adoeço. Inclusive, emocionalmente e fisicamente, mas o que eu faço? Durmo pouco, como a maioria das mães, né? Acordo muito cedo, durmo muito tarde e muitas vezes me privo de fazer algumas coisas. Em cada momento, me privo de uma coisa, às vezes eu me privo do convívio com minha família para deixar florar o meu lado profissional".

Segundo a atriz, às vezes, ela deixa o lado profissional um pouco de lado para priorizar a família. “Vou fazendo essa rotina, esse joguete, de cada momento priorizar uma coisa para que eu possa conseguir fazer tudo. Mas ainda assim é muito difícil, exatamente, porque me cobro para ser boa em tudo. Me cobro para ser uma boa profissional, para ser uma excelente mãe, uma excelente companheira (...) Me cobra para ser uma excelente filha, então, muitas vezes, estou no final do dia triste porque não consegui dar conta de tudo, mas ao mesmo tempo muito feliz de saber que cada vez mais consigo fazer aquilo que é possível e, muitas vezes, entendi que o possível é não dar conta de tudo", fala.

Mãe de um jovem preto, Tia Má revela como tem sido a criá-lo em um ambiente permeado por questões estruturais. “É um misto de sentimentos. Tenho muito medo, né? Uma sensação de insegurança, mas ao mesmo tempo, uma paz e uma consciência de que eu ofereci para meu filho conscientização sobre quem ele é, do que é possível para ele e dos lugares que ele pode se sentir seguro. Então, isso para mim, ao mesmo tempo, me dá um alívio. Mas é muito doloroso saber que milhares de outros jovens parecidos com ele não têm as mesmas oportunidades que ele tem. E isso para mim dói, porque cada vez que eu vejo um jovem negro sendo açoitado nos dias atuais, vejo um pouco do meu filho também, porque sei que era possível isso acontecer com ele”, declara.

A atriz conta que o diálogo entre eles sempre foi um hábito. “A gente tem muitos papos, desde de muito novo. Tive que ensinar o meu filho de criança, ensinei para ele: O choro não vai comover todas as pessoas. Tem gente que vai ver você chorando e não vai se comover. Porque é uma verdade, o choro de um homem negro não comove. Inclusive ainda é muito raro homens negros chorarem, né? Exatamente por isso, porque eles são educados a acharem que eles precisam ser sempre fortes e ter uma armadura”, salienta.

“Ensinar o meu filho como se portar em determinados espaços, né? Se passar por uma abordagem policial. Desde muito novo, tive que ter esse papo com ele. Inclusive, recentemente, fiz um vídeo falando sobre isso, como é educar um jovem negro, de ofertar para ele informações para que meu filho possa ter direito ao dia seguinte”, emenda.

Tia Má abre o coração e confessa medos na criação dos filhos em um ambiente permeado por questões estruturais
Tia Má com o primogênito e a caçula, assim que a menina nasceu - Reprodução/Instagram

SER MÃE DE MENINA

Agora, mãe de uma menina também, Tia Má tem percebido um novo lugar da maternidade. “Ser mãe de menina tem várias facetas, né? Tem a primeira faceta da realização, de poder ofertar para a minha filha coisas que não pude ter na minha infância. A minha filha hoje tem dezenas de bonecas negras para ela poder brincar, escolher a que ela quer olhar e se identificar, e não tive na minha infância. Então, quando faço isso por ela, estou fazendo por mim também. É a realização de um sonho”, confessa.

“Ao mesmo tempo, fico muito apreensiva, porque sou filha de uma menina e a gente sabe que meninas pretas passam por vários tipos de violência no ambiente escolar, no seu próprio lar. Então, é muito doloroso já precisar ter alguns papos, mesmo minha filha sendo uma criança, explico para ela: Ó, filha, se alguém falar para você que é um segredo, que você não pode contar para mamãe, para papai, é exatamente aí que você precisa contar. Então, já vou orientando, explicando a ela que tem locais que as pessoas não podem tocar, nem de brincadeira”, acrescenta.

QUESTÕES RACIAIS

Tia Má costuma usar as redes sociais para abordar questões raciais, um assunto delicado para muitas pessoas. Questionada se já chegou a pensar duas vezes antes de fazer uma postagem sobre o tema por medo de críticas ou cancelamentos, ela foi enfática: “Falo exatamente porque são questões que me atravessam. Sou uma mulher preta, mãe de meninos pretos, então preciso falar sobre isso. Não estou falando de novidades, estou falando de algo que acontece comigo. Então, por isso que falo tanto dessas coisas de questão racial, porque estou falando de mim, dos meus filhos, da minha realidade”.

“E claro que já hesitei em pensar (...) Inclusive, já fui orientada por algumas pessoas logo quando comecei. E tem que ter cuidado para não ficar falando só sobre isso, porque falar dessas questões são delicadas exatamente porque as pessoas não querem se reconhecer que adotaram posturas racistas no seu cotidiano. Então, quando a gente fala sobre isso, a gente cria, causa um incômodo”, completa.

A influenciadora ainda destaca: “O cancelamento já veio comigo desde que nasci porque mulheres como eu são apagadas historicamente, são invisibilizadas, então o cancelamento, quando ele não acontece no mundo online, ele já aconteceu no mundo offline. Mas vou seguir, vou seguir resistindo, reproduzindo e denunciando tudo aquilo que acredito que precisa ser denunciado”.

Tia Má abre o coração e confessa medos na criação dos filhos em um ambiente permeado por questões estruturais
Tia Má é jornalista, atriz e influenciadora digital - Reprodução/Instagram

MUITOS TRABALHOS

A série de comédia Toda Família Tem, que estreia em julho, estrelada por Tia Má, mostra o dia a dia de uma família tipicamente brasileira. “Através do humor, a série nos faz refletir sobre as diferenças, os conflitos e, sobretudo, o amor que une todos nós. Estou muito feliz em fazer parte deste projeto que, além de divertir, traz mensagens importantes sobre convivência e aceitação”, diz.

O ano de 2024 está sendo de agenda recheada para a atriz e influenciadora. “Teve a estreia de um desenho infantil, que eu dublo Dora, vai ter uma série infantil juvenil no Gloob, vai ter a nova temporada de Rensga Hits, no Globo Play, e eu fico muito feliz. E não, não imaginei, mas sou alguém que aceita os desafios que aparecem para mim. Fui lá, fui em busca, tirei meu DRT de atriz, já tinha meu DRT de jornalista. E poder fazer tantas coisas faz com que eu acredite no meu potencial, mas mais do que isso, faz com que eu tenha certeza que outras mulheres vão olhar para mim e entender que a carreira pode começar depois dos 30, sabe?”, salienta.