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Seringa, tesoura e as outras armas das vilãs de novelas

Renan Botelho Publicado em 29/04/2013, às 07h01 - Atualizado em 10/05/2019, às 11h20

As armas preferidas das vilãs - Reprodução
As armas preferidas das vilãs - Reprodução
Vilãs das novelas brasileiras se destacam por suas armas inusitadas, como a seringa de Lívia Marine (Claudia Raia) ou a tesoura de Nazaré Tedesco (Renata Sorrah). Segundo o doutor em ciências da comunicação e teledramaturgia Claudino Mayer, os crimes da ficção representam a inteligência feminina

Vamos supor que você seja um(a) vilã(o) de novela das nove e precise assassinar um inimigo sem deixar rastros. Qual arma você usaria para cometer o crime? Segundo Claudino Mayer (42), doutor em ciências da comunicação e teledramaturgia pela ECA (USP), a resposta para esta pergunta está diretamente ligada ao sexo do personagem.

“A mulher sempre foi muito mais competente que o homem em um contexto de sociedade e os autores demonstram isso pela escolha das armas. Um vilão masculino sempre apela para armas de fogo, explosões, algo mais violento. Já as mulheres são mais inteligentes, mais calculistas”, diz Claudino, que é também autor do livro Quem Matou ... - o Romance Policial na Telenovela.

A escolha de Lívia Marine (Claudia Raia), em Salve Jorge, foi uma seringa letal. A arma da vilã causou polêmica nas redes sociais, mas para Claudino a repercussão negativa é natural. “Se questiona a seringa porque ela foge do convencional. O público espera mais realidade em telenovela do que em telejornal. Mas a Glória [Perez, autora da trama] quis dizer que isso existe na vida real e gerou polêmica”, comenta.

Segundo a própria Claudia, o uso da seringa foi inspiradao em um caso verídico de uma vítima do tráfico. "Estamos falando de algo real. Essa máfia invisível existe, a seringada é uma coisa real, é uma marca registrada desse tipo de máfia. As pessoas falam que não existe, mas existe. Nos workshops que fizemos antes da novela conhecemos a mãe de uma menina que foi seringada e foi largada na rua nua e degolada", disse a atriz, em recente participação no Domingão do Faustão, da Globo.

É justamente a fuga do convencional que acaba por marcar a memória do telespectador. Quem não se lembra da tesoura de Nazaré (Renata Sorrah), em Senhora do Destino (2004), ou do anel onde Adma (Cássia Kis Magro) guardava seu veneno, em Porto dos Milagres (2001)?

“As vilãs são construídas com base na sociedade atual. Desde Adma, as vilãs ganharam um perfil mais ágil. A mulher age mais pela esperteza. A Lívia está matando com uma injeção letal. É uma maneira bem sutil”, avalia Claudino.

Para o especialista, casos polêmicos como o de Suzane von Richthofen (29), presa em 2002 após ter assassinado os pais, e da técnica de enfermagem Vanessa Pedroso (28), acusada de envenenar 11 bebês em um hospital de Canoas, se tornam fontes de inspiração para crimes da ficção. “Alguns assassinatos cometidos na sociedade por algumas mulheres causam uma repercussão muito grande. E a novela é um reflexo do que acontece com a mulher na sociedade”.

As armas das vilãs:

A seringaSalve Jorge
“A Lívia utiliza a seringa muito bem pensada, mata sem sofrimento, sem sangue. Ela é fria e calculista, precisa matar deste jeito para evitar a repercussão”, diz Claudino.

A enxadaAvenida Brasil
“A Carminha [Adriana Esteves] mata o Max [Marcello Novaes] com enxada. Até ela mata com uma arma diferente. Com homem não acontece isso na novela. A arma de fogo é masculina. Não ficaria tão crível um vilão masculino dando uma enxadada no inimigo”

O sustoA Favorita
“A Flora [Patrícia Pillar] simulou todo aquele clima de terror e massacre para provocar um ataque cardíaco no Gonçalo [Mauro Mendonça]. É uma construção diabólica, mas que não deixou de ser crível e demonstrar a inteligência feminina por trás de um crime”

A faca - Passione
“A Clara [Mariana Ximenes] mata o Saulo [Werner Schünemann] com uma faca, que também vem desse universo feminino. Em um paralelo, podemos lembrar o caso de Elize [Matsunaga] que esquartejou o marido [Marcos Kitano Matsunaga] no ano passado”

A tesoura Senhora do Destino
“A Nazaré estrapola um pouco essa visão de vilãs mais calculistas. Mas provavelmente na época que o Aguinaldo Silva [autor] escreveu este personagem, algum caso chamou atenção dele na sociedade”

O anelPorto dos Milagres
“Em termos de vilania feminina, a telenovela começou a acompanhar mais o comportamento da sociedade a partir da Adma, que usava o anel para guardar o veneno”

Fotos: Reprodução/TVGlobo