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Se a infidelidade fosse aceita, ciúme perderia muito de sua força trágica

Nahman Armony Publicado em 04/06/2008, às 17h09

Nahman Armony
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Nós, humanos, aceitamos sem questionamento as leis físicas, como "o que é jogado para o alto cai", "o fogo queima" e "a água molha". Em relação a elas não surge nenhuma indagação. Há, porém, outras regularidades que nos intrigam, como a da moeda que, se lançada incontáveis vezes, se aproximará cada vez mais de 50% de cara e 50% de coroa. Faz parte dos fatos que temos de aceitar, embora os estranhemos. Nós os aceitamos quando fazemos nossas apostas dentro de um cálculo de probabilidades. O que temos dificuldade de aceitar são certas regularidades humanas. Elas existem há milênios e as repudiamos. Uma delas - importante pelas conseqüências - é a tendência adulterina dos humanos. Ao lado da tendência monogâmica, a mais aceita e valorizada pela subjetividade atual, existe uma tendência poligâmica, repudiada e estigmatizada. Por que uma regularidade milenar não foi incorporada à subjetividade como algo inerente à natureza humana? A infidelidade está em toda a parte: nos jornais, nas fofocas, na história... No livro O Movimento Pendular, de Alberto Mussa, encontramos a tese de que "o conceito de adultério foi anterior ao de incesto, sendo o adultério, e não o incesto, essa instituição fundamental do Homo sapiens" - palavras do próprio autor em entrevista ao site da Livraria Record. Mas o infiel é visto pejorativa e preconceituosamente, como se o impulso amoroso e sexual fora da relação a dois fosse maligno, inaceitável, moralmente hediondo. Isso não quer dizer que o ser humano seja indiferente à infidelidade: a decepção e o ciúme são suas conseqüências inevitáveis. O ciúme tem base biológica: o macho de qualquer espécie animal quer que seus genes predominem e para isso precisa evitar que as fêmeas copulem com outros machos. O ciúme está a serviço da raiva e da agressividade, levando o ofendido a anular o rival. Carregamos essa herança atávica em nossos cromossomos, mas o processo civilizatório a atenuou. Mas, como humanos, introduzimos outra complicação. Em nossa infância dependente, apegamo-nos a nossa mãe e tememos perdê-la, razão pela qual qualquer pessoa que dela se aproxime será objeto de ciúme, raiva e desejo de destruição. Ao crescermos elaboramos esses sentimentos, mas eles persistem de forma atenuada e disfarçada. Assim como fomos "reizinhos" para nossa mãe, assim como fizemos uma fantasia de exclusividade, assim queremos, ao nos tornarmos adultos, que nosso "The One" só tenha olhos de amor erótico e apaixonado para nós; desejamos repetir na idade adulta a fantasia infantil arcaica de ser o Único para aquela pessoa. Aí estão algumas das bases da violência apaixonada com que se vive a infidelidade. Mas o homem já se deparou com muitas realidades intoleráveis que acabou aceitando. Por que não pode acatar que, como o ciúme, a infidelidade é um dado inevitável da natureza humana? A desnaturalização da infidelidade torna o ciúme ainda mais perigoso, pois as pessoas se sentem justificadas para tratar o infiel como um deformado mental a ser punido ou destruído. Se se retirasse a pecha de aberração da infidelidade, seria mais fácil lidar com o ciúme, reduzindo o sofrimento e evitando conseqüências trágicas.