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Sádico não sabe dar e masoquista não sabe receber amor. Ambos sofrem

Redação Publicado em 05/03/2013, às 10h56 - Atualizado em 10/05/2019, às 11h20

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Quando em um parceiro amoroso prepondera a dinâmica masoquista e, no outro, a sádica, formase, teoricamente, o par complementar perfeito. O problema é que eles não podem celebrar essa perfeição, uma vez que estão aprisionados a seus respectivos sofrimentos.

Diferentemente do que supõe o imaginário popular, o que caracteriza o masoquista não é gostar de sofrer. Ele escolhe o sofrimento que prefere ter, por assim dizer, ou seja, protege-se no abrigo de um sofrimento conhecido, temeroso de ser avassalado por uma dor ainda maior, pois desconhecida. Suas fantasias catastróficas a respeito do outro, da vida e do destino o levam a exercer algum controle sobre essas instâncias, mostrando-se necessariamente bom e capaz de suportar frustrações. Com esse expediente, o “outro malévolo temido” é coberto pelo pó de pirlimpimpim do masoquista, com o qual ele imagina mantê-lo refém.

O sádico, reciprocamente, que parece experimentar prazer vendo o outro sofrer, vivenciar humilhações, derrocadas, é na verdade um ferido e frustrado, que encontra conforto e se sente menos só em sua condição ao ver em alguém a expressão maiúscula da dor que ele mesmo conheceu. Promove no outro a reprodução da dor vivida, o que lhe proporciona a mágica sensação de ter algum controle sobre a origem dessa dor. Tal mecanismo o faz se sentir menos vulnerável à crueldade do outro, do destino, do abandono, do vazio a que um dia foi submetido, provavelmente nos primórdios da vida. Sua dor lhe parece mais suportável dessa maneira.

O sádico e o masoquista são, portanto, dois sofredores ocupados com estratégias inconscientes para driblar os temidos golpes do destino. Ambos, cada um a seu modo, são controladores. Ambos recorrem a expedientes mágicos. Ambos são prisioneiros dos mecanismos que criam para aplacar a própria dor — embora, na concretude da vida relacional, o sádico promova sofrimento e o masoquista acolha a dor que lhe é imposta. 

Minha experiência clínica evidencia — e minha experiência pessoal confirma — que o sádico é aquele que não sabe (não pode) dar e o masoquista, aquele que não sabe (não pode) receber. O doador não recebe e aquele que recebe não doa. Estranha forma de reciprocidade.

Observemos, no entanto, algumas distinções importantes. Ao doar, o masoquista afirma a existência do outro. Esse gesto evidencia sua natureza relacional e sua índole ética e generosa, mesmo quando se considera que ele prescinde da reciprocidade e parece sobreviver sem ela. O sádico, ao contrário, não reconhece o outro como existente, uma vez que de tudo faz para priválo de todo e qualquer tipo de gratificação. Em lugar de validá-lo, tenta esvaziálo de qualquer valor — e o faz, inclusive, quando deixa cair no buraco negro de sua doença as doações recebidas, por não reconhecê-las como alimento.

Disso decorre uma problemática conclusão: é infinitamente mais possível promover no masoquista a capacidade de receber do que no sádico a capacidade de doar. O masoquista pode desenvolver por si mesmo consideração semelhante à que ele tem pelo outro. O sádico, diferentemente, não pode desenvolver pelo outro qualquer consideração, porque com isso afirmaria o valor de um objeto pressentido como muito ameaçador.