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Que o amor emerge da paixão, todos sabem, mas o oposto também ocorre

Redação Publicado em 29/01/2013, às 11h30 - Atualizado em 10/05/2019, às 11h20

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Um dos hits da sabedoria convencional reza que o amor é o último estágio da paixão, o viço afetivo depurado pelo tempo, o fascínio testado e confirmado pela experiência. Algo como a paixão envelhecida — no sentido de melhorada — nos barris da vida a dois. É como se aquelefoguete de alta energia, cheio de tesão e emoção à flor da pele, conseguisse escapar da autodestruição pelo fim do combustível da ilusão e da idealização e alcançasse uma órbita confortável, na qual alguns conseguem viver para sempre — felizes ou resignados —, entre pequenas ou grandes oscilações.

Que a paixão conduz ao amor todo mundo sabe, mas poucos pensam que o caminho inverso também seja possível. Sim, estou dizendo que a paixão também pode emergir do amor. Às vezes ela brota da convivência, que em lugar de diluir o sentimento o fortalece, aumentando a “liga” entre os parceiros. Não se trata de atração física, simplesmente, do desejo no sentido estritamente sexual, mas da paixão pelo caráter, da admiração pelos dotes sublimados ligados à realização e criação, à devoção parental e familiar, às atitudes diante da vida: intelectuais, éticas ou políticas. A paixão que emerge do amor retorna também com frequência às raízes, ao núcleo que no passado foi o motivo do recíproco fascínio original. 

No casal bem-sucedido, o foguete da paixão vai para o espaço, mas parte de seu combustível permanece preservado e a qualquer momento pode dar novo impulso à vida conjunta. Afinal, a paixão, segundo revelam as pesquisas acadêmicas, dura pouco mais de um ano, período em que libera nos corpos afetados por ela uma substância — a neurotrofina — responsável por sensações agradáveis. Quando essa vertigem passa, muitos se desanimam. Não se conformam em não desfrutar mais aquele entusiasmo inicial. O casamento, então, sucumbe à intolerância de um ou de ambos a uma vida sem variedade e emoções picantes.

Aqui entre nós, às vezes as relações se tornam mesmo insatisfatórias, e, aí, pode ser a hora de terminar. Falo daqueles casais que não conseguem confirmar suas possibilidades e veem o amor se extraviar sem poder reagir. Mas isso é diferente do vício da paixão, aquela sensação de que a vida está sempre atrasada em relação aos sonhos e ambições amorosas. É como se a vida tivesse uma dívida de amor com essas pessoas, que ainda não foi saldada. Elas não entendem que a falta e a insatisfação são itens constitucionais do ser humano, que para ser feliz é necessário primeiro fazer um luto por essa perda da ilusão. Ou, como diria o texto bíblico (o admirável Eclesiastes): “O coração dos sábios está na casa do luto, mas o dos insensatos na casa da alegria. Melhor ouvir a repreensão do sábio do que a canção do insensato”.

Que tal ouvir os dois, Salomão? Ainda precisamos nos acostumarcom a simultaneidade dos sentimentos, inclusive a tolerar na relação afetiva os de amor e ódio juntos. É verdade que às vezes  surgem pessoas que parecem poder nos livrar dessa ambivalência e se encaixar direitinho como personagem de nossas ilusões. Porém, passada essa alucinação, há quem queira procurar outra, e outra, e outra. Aí, vale pensar se essas novas paixões indicam o fim de um amor, a procura de algo melhor, ou não passam de um correr ambicioso e interminável em direção a algo que nunca será real.