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Quando não se deseja mais, dizer a verdade é o último ato de amor

Paulo Sternick Publicado em 19/04/2007, às 13h31

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Paulo Sternick
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Nem sempre o amor termina ou a relação perde sentido para os dois ao mesmo tempo. Claro, se ambos ficarem longamente desanimados e concordarem em que chegaram ao fim da linha, fica menos difícil separarse. Mas convém evitar acusações mútuas. Melhor pedir o "livro do Neruda e o disco do Pixinguinha", como diz Trocando em Miúdos, de Chico Buarque (62) e Francis Hime (67), ilustrando o melancólico, porém digno momento final de um casal: "Eu bato o portão sem fazer alarde/ eu levo a carteira de identidade/ uma saideira, muita saudade/ e a leve impressão de que já vou tarde." Então, como se diz hoje, a fila anda e novos amores virão. Mas não é preciso, por causa disso, se atropelarem uns aos outros com pressa. Na minha juventude, isso se chamava angústia. Vida a dois não combina com velocidade. Rima com paciência, tolerânciaàs frustrações, suportar sentimentos opostos e alternâncias de prazer e insatisfação. Para ficar juntos, os parceiros devem ter êxito em trocar o sonho de uma união ideal pelas gratificações possíveis do casal. Essa troca às vezes só se faz com a ajuda do psicanalista. Não há união sem sentimentos antagônicos e sem que se faça o luto por uma felicidade ideal inatingível. Mas a verdade não é pretexto para se eternizar toda e qualquer situação que esteja demoradamente apenas insatisfatória. Caso a união não seja mais possível, esqueçam as palavras do psicanalista; ou as do papa Bento XVI (79), que condenou segundas uniões; ou as supostas regras do Evangelho. Esqueçam mais ainda o medo de ficar só. Melhor sentir saudade, gratidão pelos bons momentos vividos juntos e o perdão pelas falhas recíprocas. Afinal, podemos nos enganar e nem todas as pessoas dão certo umas com as outras. Sintonia entre dois seres é algo raro. Que continuem a viver acompanhados pela esperança de felicidade consigo mesmos e, quem sabe, com outra pessoa no futuro. Mas já imaginaram quão constrangedora é a situação quando um dos pares não quer mais, tendo perdido os sentimentos que cultivava, enquanto o outro nem desconfia desse fim? O pombinho desanimado adia ou oculta a verdade, pois nem sempre nutre a certeza de estar tomando a atitude certa. Tem medo de ficar sozinho, de sofrer e se arrepender da separação. Uma tomada imediata de decisão sofre a disputa de um sentimento insuportável de culpa ao se pressentir o sofrimento que causará em si e em quem esteve tão próximo, e por quem ainda se sente ternura e afeição, embora não mais claramenteo desejo de ficar junto. Tudo isso sem contar as razões financeiras, se há uma família, e em especial a repercussão nos filhos.É uma decisão difícil. Mas também congelar uma situação penosa quando ainda se tem expectativa em relação ao amor provoca sofrimento inútil, promessas de maiores decepções e risco de transas paralelas. Manobras evasivas, às vezes, são adotadas. A dificuldade de separar é tanta que um site, o The Relationship Terminator, do inglês Dimitri Sarmakivis, oferece uma "terceirização" para "executar" o casal: mediante pagamento de taxa, alguém telefona ou envia e-mail comunicando o fim da união. Um absurdo! Outros truques que utiliza são: plantar confidências premeditadas entre amigos ou parentes de quem se deseja separar; deixar pistas de traição para o outro ver; ou submetê-lo a uma operação de "fritura", para fazer com que ele ou ela tome a decisão que está com dificuldade para tomar. Nem todas as pessoas que estão nessa situação enrolada entendem que o último gesto de consideração por quem não querem mais é falar a verdade.

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