Revista CARAS
Facebook Revista CARASTwitter Revista CARASInstagram Revista CARASYoutube Revista CARASTiktok Revista CARASSpotify Revista CARAS

O amor da relação atual é único, não compete com o da anterior

Alberto Lima Publicado em 21/05/2008, às 17h23

Alberto Lima
Alberto Lima
Ao contrário do que ingenuamente se supõe, o campo amoroso não é monoteísta, mas verdadeiro panteão. Somos amorosamente polivalentes. Tomemos consciência disso e nos responsabilizemos pelas implicações desse fato. Sem perda de tempo, vamos logo à experiência vivida. Supondo-se que, de fato, a palavra amor se aplique à situação, podemos afirmar que, quando alguém diz que não tem certeza se ama uma pessoa ou outra, é possível que ambas sejam amadas. Mais parecido com a realidade psicológica seria dizer: "Não sei a qual desses dois amores eu suporto renunciar". Quando se faz uma escolha amorosa, decide-se não viver uma série de outros amores. Pode-se fazer com que a libido - energia psíquica - se destine a um grande amor, situação em que a pessoa opta por privar-se de outros amores. Ajuda-nos a entender esse fenômeno a vivência parental: o pai e a mãe "inventam" um amor para cada um dos filhos. É bobagem a afirmação de que "o amor que sinto pelos meus filhos é um só", ou "amo meus filhos igualmente". Cada filho faz emergir em nós um amor distinto. Não é verdade que tenhamos um único amor e ele se distribua pelos filhos que pomos no mundo. O amor que temos por um filho é só dele. Para os demais, dispomos de uma capacidade amorosa que nos permite amar cada um de um jeito novo, por motivações distintas; veiculamos nosso amor de modos impossíveis de se repetir; promovemos com nosso amor coisas inusitadas em cada filho. É importante que seja assim. Com os adultos, no plano da parceria amorosa, ocorre algo semelhante. Não há um amor único que se movimente de um parceiro para outro, feito um líquido que se transporta de um jarro a outro. Para cada um de nossos amores, fundamos um jarro distinto e o preenchemos com um conteúdo diferente. Assim, não existe algo como "Não amo mais você; agora amo outra pessoa", como se o amor que se destinava a uma pessoa pudesse ser transposto para outra. O que existe é: "Escolho não mais nutrir um grande amor por você. Esse amor, eu o deixo morrer. Teve início uma outra história de amor, movida e sustentada por outro padrão amoroso, que emerge em mim em razão da relação que opto por ter. Eu escolho perder você". Parceiros amorosos não perderiam tanto tempo sentindo-se inseguros pelo fato de seus parceiros de vida já terem vivido outros amores se pudessem compreender que o amor que entra em jogo na união atual é único, não compete com o anterior. Por isso, a alegria que alguém sente pelo amor que experimenta não cancela a dor que sente pelas dificuldades que teve em outras relações. São coisas distintas e podem ser concomitantes. Numa cultura monogâmica como a nossa, nós renunciamos a um amor ao escolhermos nos dedicar a um novo, quando é o caso. Talvez possamos afirmar que nossa capacidade amorosa é uma só: grande, polivalente, múltipla em suas possibilidades. Mas dela emergem inúmeras modalidades de amor, algo semelhante ao que ocorre com o artista plástico: ele tem uma capacidade criativa; com ela, pinta quadros distintos. Não há um quadro igual a outro. A obra, em seu conjunto, é uma só, mas as possibilidades de manifestação são inesgotáveis. Não poderia haver melhor metáfora para a criatividade amorosa humana.