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Ninguém agüenta mais o juridiquês, do latim juridicus, jurídico, aquela linguagem empolada típica de advogados e juízes, um verdadeiro mix,

...de palavras pouco usadas e desconhecidas do público em geral cujo significado às vezes se torna difícil de decifrar.

por Deonísio da Silva* Publicado em 21/10/2008, às 20h53 - Atualizado em 05/01/2009, às 19h45

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Crediário: do étimo latino de crédito, credi-, mais "ário", processo comum na formação de palavras, como berçário, ossário, lampadário. O latim creditum, creditado, confiado, emprestado, é do mesmo étimo do verbo credere, acreditar, crer. O comerciante que vende fiado - palavra que veio de fiar, do latim vulgar fidare, confiar, que no latim culto era fidere - acredita no comprador e confia que ele, no futuro, pagará o que compra no presente, sem pagar. Assim procede também o banco que dá crédito ao cliente. O primeiro crediário, o crédito já organizado em sistema, foi lançado no Brasil em 1931 por A Exposição, uma loja muito conhecida no Rio de Janeiro, infelizmente destruída num incêndio em 7 de julho de 1953, segundo pesquisa feita por Reinaldo Pimenta (59), autor de A Casa da Mãe Joana 2 (Editora Campus). O crediário mais comum é proporcionado pelo cartão de crédito, inventado, sem querer, nos Estados Unidos, em 1950, por executivos que saíram para jantar e esqueceram de levar dinheiro ou cheques. Um deles assinou a nota de despesas. Depois, outro do grupo formalizou esse tipo de pagamento, credenciando o portador com um cartão, logo aceito naquele restaurante e em outros 26, que aderiram. Nascia ali, em Nova York, o cartão de crédito, que chegaria aqui apenas três anos depois. Hoje o Brasil é o oitavo país que mais emite cartões de crédito. Cerca de 50% dos brasileiros têm algum tipo de cartão de crédito. A grande derrocada da economia dos Estados Unidos, que desarrumou as economias do mundo inteiro, tem no crédito imobiliário seu epicentro. Os imóveis foram excessivamente valorizados, sobre tal valor os bancos deram crédito aos clientes. Em seguida a confiança passou a perder-se em cascata. Inadimplente: do étimo latino plen-, presente também em pleno, plenitude, antecedido do prefixo "in", indicando negação para adimplente, de adimplir, do latim adimplere, encher, preencher, isto é, cumprir um contrato. Quando é concedido um crédito ou vendido algo fiado, as partes fazem um contrato. Se o devedor não cumpre sua parte, torna-se inadimplente. No Brasil, a inadimplência do crediário estava ao redor de 4% ao irromper a crise vinda dos Estados Unidos. Juridiquês: de jurídico, do latim juridicus, jurídico, dizer o direito, jus dicere, isto é, pronunciá-lo. À semelhança da linguagem dos economistas, que produziu o jargão economês, a linguagem dominante entre os advogados resultou no juridiquês. O juridiquês está com os dias contados. Ninguém mais agüenta tanta empolação. A ministra gaúcha Ellen Gracie Northfleet (60), quando presidente do STF, endossou a campanha contra esse tipo de linguagem. Quem, entretanto, deflagrou o combate no Brasil meridional foi o juiz Ricardo José Roesler (52), que, em início de carreira, em 1988, escreveu em despacho ou sentença: "O réu seja encaminhado ao ergástulo público". O delegado, formado em Direito e novo no cargo, recebeu a ordem e passou a procurar um ergástulo na pequena cidade. Perguntava a todo mundo onde ficava o ergástulo. Ninguém sabia. Dois dias depois ninguém encontrara o ergástulo público. O juiz soube do ocorrido e explicou que ergástulo era cadeia. "Mas por que ele não disse antes?", perguntou um dos policiais, acrescentando: "Todo mundo sabe onde fica a cadeia, mas ninguém sabe onde fica o ergástulo, que, agora sabemos, é a mesma coisa, com nome arrevesado". O advogado flagrado praticando o juridiquês semelha um Odorico Paraguaçu dos tribunais. O célebre personagem de Alfredo de Freitas Dias Gomes (1922-1999) complicava a língua portuguesa, com o fim de ostentar um português culto, porém ridículo justamente pelas estranhas palavras que criava. Mix: do inglês mix, mistura, redução do latim mixtus, particípio passado de miscere, misturar, reunir, do grego mísgein, conservado em miscigenação, mistura de raças, do inglês miscegenation. Provavelmente influenciada por Oxford, Lourdes Sola (70), Ph.D. em Ciência Política por aquela universidade e professora da Universidade de São Paulo, utilizou mix e não mistura, ao comentar o desempenho do governo federal: "A popularidade do presidente Lula legitima um mix bizarro, que explica seu ativismo e também o que há de ortodoxia nesse governo". Ela é autora do livro Banco Central: Autoridade Política e Democratização - Um Equilíbrio DelicadoFundação Getúlio Vargas).