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Não se precipite. Pense muito bem antes de falar em separação

Alberto Lima Publicado em 29/03/2007, às 11h28

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Alberto Lima
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Nas últimas décadas, temos testemunhado uma espécie de banalização da experiência conjugal. É cada vez maior o número de casamentos que são rapidamente desfeitos. Sem muito pensar, os parceiros dizem: "Vamos nos separar". Na verdade, é como se estivessem dizendo: "Assim não brinco mais!" E acabam se separando mesmo, sem refletir sobre as causas da insatisfação. Acontece que um casamento não é uma brincadeira e não se pode simplesmente botar a bola embaixo do braço e sair de campo. Ou, pelo menos, não parece sensato fazer isso de forma irrefletida, uma vez que a união foi desejada. Numa perspectiva sensata e adulta, a questão que se coloca é: no que está pensando um casal (ou uma de suas partes) quando diz que quer separar-se? O que se esconte por trás desse "não brinco mais?" Talvez a intenção seja preservar as individualidades, engolidas pelos papéis associados ao casamento. Talvez a proposta radical só mascare um protesto, uma queixa, ou expresse desejos pessoais, demandas que não requerem, de modo algum, rompimento. Construir um casamento não é tarefa fácil. Exige a revisão de valores e a renúncia a expectativas, hábitos, crenças, projetos, desejos e até esperanças. Isso não significa que essas dimensões serão levadas à extinção, tampouco que uma parte deva se anular diante das necessidades e demandas da outra. Mas significa que a união conjugal é um ponto zero a partir do qual se estabelecem novos costumes, intentos, planos e ideais de felicidade. Para empregar um jargão psicológico, o casamento não é a soma de duas individualidades, mas um terceiro fenômeno, que transcende, supera e se diferencia da mera colagem dessas individualidades, para alcançar um feito novo: a vida a dois. Vida a dois é diferente da vida de um mais um, mas muitas pessoas entram no casamento movidas pela ingênua crença de que apenas somarão duas peculiaridades. Ou casam-se apoiadas na suposição de que o casamento é a preservação de um - um só -, acrescido de um apêndice, uma espécie de upgrade. Adquire-se um marido ou uma esposa como se compra uma coisa utilitária qualquer, que deverá simplesmente se ajustar àquilo que já está pronto, ou seja: a própria individualidade, o próprio modo de ser, os próprios hábitos e valores. O tal "não brinco mais!", mascarado de "quero me separar", em geral expressa o ressentimento pela vivência da perda de uma condição idealizada, em que o parceiro é almejado como um adereço, sem que se tenha de renunciar a nada, sacrificar nada, aprender nada e, não menos importante, sem que a pessoa se disponha a evoluir. A experiência dessa perda é, de fato, penosa. Poucas pessoas se preparam para vivê-la, por não compreenderem o significado do casamento. Imaginam uma coisa e, quando chegam lá, é outra. No entanto, é bom advertir: todos os casais passam por frustrações e decepções, além de experimentarem enorme demanda por transformações pessoais. Todos, não apenas aqueles que chegam à separação. A frustração é inerente à empreitada conjugal - e sem ela não existem crescimento, evolução e transformação. Bem-sucedidos são os casamentos que sobrevivem à perda da imagem idealizada de que uma união é feita somente de harmonia. Sejamos otimistas, porém também sensatos: basta que os pretendentes saibam que a tão desejada harmonia é um ponto ao qual se chega, que se constrói, raramente se apresentando como um ponto de partida. Mesmo quando presente desde o início, a harmonia há de ser desconstruída em favor da edificação de uma configuração melhor e mais madura. Na mitologia grega, Harmonia é filha de Afrodite e de Ares, ou seja, resulta do encontro do amor com a guerra. Se quisermos ser dispensados da segunda, dificilmente teremos conhecido a fundo a primeira.