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Arquivo / Joias e Acessório

Marloes: uma reinvenção dos sapatos

Marloes ten Bhomer vem revolucionando o design de calçados ao criar peças que ignoram as convenções

Redação Publicado em 12/07/2010, às 15h01 - Atualizado em 20/07/2010, às 11h37

Marloes ten Bhomer em seu ateliê; a designer holandesa mistura moda e arte nos sapatos que cria. Abaixo, passo a passo da criação do Beigefoldedshoe, modelo de couro vegetal e salto de aço inoxidável; o par leva uma semana para ser produzido e é feito - Divulgação
Marloes ten Bhomer em seu ateliê; a designer holandesa mistura moda e arte nos sapatos que cria. Abaixo, passo a passo da criação do Beigefoldedshoe, modelo de couro vegetal e salto de aço inoxidável; o par leva uma semana para ser produzido e é feito - Divulgação
A famosa ilustração de René Magritte de um cachimbo acompanhado da frase "isso não é um cachimbo" parece servir de inspiração para o trabalho da designer holandesa de sapatos Marloes ten Bhömer, considerada uma revolucionária. Ela acredita que os produtos que nos cercam são muito chatos. "Eles são facilmente reconhecíveis e baseados em padrões centenários", diz. "Acho excitante e desafiador redefinir como um objeto pode ser construído, visto ou sentido". E a atração por sapatos vem, em parte, pela crença de que por estarem muito perto do corpo, eles exercem grande influência em quem os usa. Suas esculturas já pisaram no Design Museum de Londres, na Galeria Lucy Mackintosh em Lausanne, na Suíça, e no Krannert Art Museum, em Illinois, Estados Unidos. Marloes não cria apenas sapatos. Mas sapatos, diversão e arte. JOIAS & ACESSÓRIOS: Como você se tornou designer de calçados?MARLOES TEN BHÖMER: Enquanto estudava Design na Higher School of Arts Arnhem, na Holanda, fui apresentada ao design de sapatos por um dos meus orientadores, Marijke Bruggink, fundador da Lola Pagola. Depois, no mestrado de Design de Produtos no Royal College of Art, em Londres, na Inglaterra, foquei meus estudos nisso. Nessa época, combinei conhecimentos de estrutura, materiais e processos com a mais tradicional arte de fazer sapatos. Considero o sapato um tema muito interessante e complexo. Ele abrange todo o espectro de design, do conhecimento do material até a engenharia e aspectos altamente intuitivos. E eu, pessoalmente, me preocupo com o design que ignora ou critica as convenções para tornar o mundo menos comum. Fazer sapatos não convencionais e manter a técnica apurada é um desafio. J&A: Por que você decidiu criar sapatos tão provocativos? MTB: Acho uma pena quando você consegue, instantaneamente, entender os produtos a sua volta. Nem tudo é o que parece ser. Então, por que os objetos precisam se fazer entender de imediato? Por que um designer precisa consentir com certos estereótipos? Repensar como uma peça pode ser e quais funções pode ter é instigante e derruba preconceitos e expectativas que temos em relação a ela. E, para continuar alargando as fronteiras do design de sapatos, é essencial manter o foco no experimentalismo e pesquisar caminhos e abordagens ainda não explorados. Depois que começo um projeto, jamais vou deixar que a função do sapato limite seus aspectos artísticos. E essas peças podem ter várias funções, como servir para passarela, para fotografia ou serem sapatos propriamente ditos. J&A: Quanto tempo leva para se fazer um par de sapatos? MTB: O modelo Beigefoldedshoe demora uma semana e meia para ficar pronto. E nesse tempo estão incluídos os processos de tingimento, enceramento, corte, polimento dos saltos, junção das partes internas, costura e aplicação do solado. Tudo, com exceção da solda para fixar o salto, é feito à mão. J&A: Quais matérias-primas e tecnologias você usa em suas criações? MTB: Os materiais que eu costumo usar são as fibras de carbono (extremamente finas e resistentes) e de vidro, couro, aço, borracha de poliuretano e uma variedade de plásticos. Para trabalhar com eles, uso tecnologias de ponta já existentes, como a laminação computadorizada (Computer Numerical Control, em inglês), onde um computador lê um modelo 3D e direciona a máquina para fabricar cada componente selecionando a parte que será removida do material; o molde rotativo, que consiste no preenchimento de uma fôrma oca com um líquido que se solidifica com o movimento de rotação e cria um tipo de casca; e a prototipagem rápida, que designa um conjunto de tecnologias usadas para se fabricar objetos físicos a partir de fontes virtuais 3D. E uma técnica que eu mesma inventei é a laminação do couro ou leather-marché. Ela foi especialmente criada para fazer um sapato que não conta, em nenhum momento, com a etapa da fôrma e ainda tem espessuras diferentes. Isso permite que o sapato a ser produzido se adeque exatamente ao formato do pé no seu interior, mas por fora seja completamente diferente do convencional. J&A: Como é ter um sapato exposto em um museu e não na vitrine de uma loja? MTB: Minha pesquisa com pés e sapatos resultou em uma grande variedade de modelos experimentais. Alguns deles foram desenvolvidos para serem usados de verdade e outros foram produzidos para serem apenas esculturas. A existência dessas duas direções cria a possibilidade de se discutir percepções de funcionalidade e diferentes contextos, como galerias de arte, museus e lojas, para os sapatos estarem. Isso desafia o público.