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A intimidade é uma delícia, mas convém ficar de olho nos excessos

Redação Publicado em 19/09/2011, às 15h32 - Atualizado em 08/08/2019, às 15h43

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Muitos casais experimentam o que talvez se possa chamar “privacidade compartilhada”. Os parceiros se dispensam dos protocolos normalmente exercidos entre pessoas menos íntimas, em contextos mais formais. Desnudam-se com naturalidade, usam o banheiro sem fechar a porta, comem juntos o mesmo camafeu de nozes, distraem-se e trocam as escovas de dentes. Em grande parte, isso revela uma abertura, um jeito descomplicado de lidar com o cotidiano, a suspensão do nem sempre cordial comportamento “politicamente correto”. Em princípio, tudo pra lá de certo, aceitável, ou mesmo desejável. No entanto, existe um risco: que o casal adentre a delicada região relacional em que os espaços privativos se misturam e as individualidades começam a se fundir — o que não costuma dar bons resultados.

Claro que não podemos generalizar. Há uma grande diferença entre um casal à vontade na relação e a fusão de personalidades. Algumas vezes o tempo de convivência é fator relevante. No começo do relacionamento, os comportamentos “sem fronteira” surgem como que para angariar informalidade. Aos poucos, porém, banalizam de tal maneira o convívio que coisas preciosas para a preservação do amor e da quentura na relação podem se perder. Conquistar liberdade e conforto não deverá jamais ser o mesmo que dinamitar o cuidado na relação.

Gestos e ações que por algum tempo são indicadores de que tudo vai bem entre o casal gradativamente descambam para um tipo de desdém. Estar aí, bem à vontade, é diferente de não estar nem aí! No início da relação, um dos parceiros exclama: “A gente se dá tão bem! Tudo entre nós é tão livre e gostoso!”. Anos depois a apreciação dos mesmos sinais dá lugar a queixas e mágoa: “Que é isso, meu amor? Dá pra ter um pouco mais de educação?”.

Definitivamente, não sou favorável à formalidade no relacionamento amoroso. Ela o torna asséptico demais, insípido, incolor e, geralmente, inodoro. Não há quem consiga sentir tesão por uma relação que faz lembrar as paredes dos corredores de um hospital. Falta graça, falta o humano. Falta alma! E alma não é algo lá muito limpinho, nem é pra ser.

Mas tampouco sou favorável à perda do cuidado. Não me parece muito excitante a sonoridade do arroto, o cheiro do pum, o zunido da língua contra os dentes para sacar fiapos de manga, o chafurdar sem convite na bolsa ou na carteira do outro em busca de uma coisa qualquer. O outro não é eu, então não pode ser tratado como tal. O perigo é que as personalidades se confundam, o que é totalmente diferente de estarem verdadeiramente juntas. Só podem estar juntas pessoas separadas. Caso contrário, estarão fundidas. Isso não é saudável.

Não quero aqui fazer a apologia do “nem tanto à terra, nem tanto ao mar”. Nada do que é média pode ser psiquicamente bom. Parece-me mais saudável a síntese. Trocando em miúdos, o recomendável não é um pouco do informal e livre combinado com um pouco do formal e cuidadoso. Isso é média. A síntese é outra coisa: consiste em se saber quando e onde cabe a liberdade absoluta, como tão bem ilustram as vivências de sexualidade, e quando é requerida uma maneira mais zelosa de se comportar, o que inclui a reserva, o pudor, a fronteira bem estabelecida entre o compartilhado e o privativo.