Etimologia

segunda 17 maio, 2010


Criam-se muitas palavras no país e parte vai para os dicionários. Rui Barbosa, por exemplo, criou egolatria, do latim ego, eu, e latreía, culto a um deus, como variante de narcisismo. Já Dias Gomes inventou “apenasmente” e outras em suas novelas, mas desapareceram com seus personagens.

Aliciar: do latim vulgar alliciare, que no latim clássico é allicere, como o usa o político e orador latino Cícero (106-43 a.C.) em allicere judicem, aliciar o juiz, com o significado de trazê-lo para o lado do advogado. Aliciar tem também o sentido positivo de persuadir com argumentos, ganhando o interlocutor para uma boa causa, mas aparece quase sempre com o sentido pejorativo, como em aliciar menores para o crime. O Aliciador é o romance de estreia do advogado italiano Donato Carrisi (36), baseado no caso Luigi Chiatti (42), condenado pelo assassinato de duas crianças na década de 1990, na Itália. O assassino, filho de mãe solteira, mudou de nome aos 7 anos, quando foi adotado, abandonando o nome de batismo: Antonio Rossi. O título da edição brasileira foi adaptado, pois Il Suggeritore, título original italiano, designa o profissional de teatro que faz o ponto. Contábil: do latim computabilis, computável, que se pode contar, no sentido de calcular, mas a partir do século XV também com o significado de narrar. Do mesmo étimo é putare, limpar, purificar, que resultou em podar e em apurar, isto é, saber a verdade sobre uma conta ou acontecimento. Por incrível que pareça, o étimo está também em ambi putare, cortar dos dois lados, cortar em volta, que resultou em amputar. Só assim para entendermos tantos cortes em orçamentos. Também são do mesmo étimo computar e computador. Egolatria: do latim ego, eu, e latreía, serviço ou culto a um deus. O político e escritor baiano Rui Barbosa (1849-1923) inventou esta palavra como variante de narcisismo. Era o ano de 1911 e ele tinha sido candidato à presidência da República, sendo derrotado por Hermes da Fonseca (1855-1923). Dois anos depois o presidente casava com a caricaturista Nair de Tefé (1866-1981), 31 anos mais jovem do que ele. A chapa vencedora teve 403867 votos, contra 222822 dados aos perdedores. Cem anos depois, o vencedor terá de angariar mais de 60 milhões de votos. O novelista Alfredo de Freitas Dias Gomes (1922-1999) também criou palavras, transformando advérbios em substantivos, com seus "entretantos" e "finalmentes". E achando pouco "apenas" mudou para "apenasmente". As novas palavras apareceram na telenovela O Bem-Amado, cuja trama foi baseada num fato real: no interior do Espírito Santo, um candidato a prefeito tinha prometido um cemitério. O ator Paulo Gracindo (1911-1995), cujo nome nos documentos era Pelópidas, fazia o divertido ególatra "dotô coroné prefeito", como o chamava Zeca Diabo, vivido por Ariclenes Venâncio Martins, mais conhecido como Lima Duarte (80). Ele inaugura com o próprio cadáver o cemitério que prometeu. Executado por ter sido autor da calúnia que levantou contra Zeca Diabo, que jamais matara ninguém, morre se engrandecendo: "Interesses antipatrióticos... Uma trama internacional... Uma superpotência... Materiais atômicos... Eles querem Sucupira! Querem dominar o mundo...". Mostruário: do catalão mostruari, móvel em forma de caixa em que as mercadorias eram mostradas ao público. Passou a designar mesa, balcão ou outra mobília para expor mercadorias, mas especialmente a vitrina, assim chamada por ter vindo do francês vitrine, que mostra através de vidros. O poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) criou a palavra monstruário, que se lê em Mineração do Outro: "Os cabelos ocultam a verdade./Como saber, como gerir um corpo/ alheio?/ Os dias consumidos em sua lavra/ significam o mesmo que estar morto./ Não o decifras, não, ao peito oferto/ monstruário de fomes enredadas,/ ávidas de agressão, dormindo em concha./ Um toque, e eis que a blandícia erra em tormento,/ e cada abraço tece além do braço/ a teia de problemas que existir/ na pele do existente vai gravando". Como se vê, ele brincou com o par ouro/outro e mostruário/monstruário. Ponto: do latim punctum, pequeno buraco feito por uma picada. Foi por isso que o sinal de fim de período foi designado ponto, por semelhar-se a uma picada. Ponto de ônibus; ponto de táxi; ponto de prova; ponto de trabalho; bater o ponto era fazer um buraco no cartão; pontos ganhos e pontos perdidos nos esportes; pontos de energia, como aqueles do nosso corpo ativados pela acupuntura. Está presente também em expressões como "entregar os pontos" (perder antes do fim), "não dar ponto sem nó", "em ponto de bala", isto é, quando a calda do melado está na situação em que, ao esfriar, vira bala, caramelo, guloseima. Temos ainda os pontos cardeais. Ponto é uma das palavras com mais significados que o português tem.
por por Deonísio da Silva*
Atualizado segunda 17 maio, 2010 (145072)

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