Revista CARAS
Facebook Revista CARASTwitter Revista CARASInstagram Revista CARASYoutube Revista CARASTiktok Revista CARASSpotify Revista CARAS

Diga-me quem você escolhe para amar e então eu lhe direi quem és

Paulo Sternick Publicado em 12/06/2008, às 16h31

Paulo Sternick
Paulo Sternick
Nas escolhas amorosas, os parceiros nem sempre dispõem de um radar apurado que identifique, primeiro, o que desejam, quais são suas singularidades e necessidades; depois, com qual tipo de pessoa combinam melhor. Ter a percepção sutil de si e do outro, este saber é difícil - uma descrição que é mais apropriada a escritores, poetas e psicanalistas. Movidos a impulso e fantasia, e menos pela capacidade de observar nuanças e pensar, os que estão in love se atraem por tesão e intuição, não raro com razoável ignorância recíproca sobre o que se oculta nas aparências. Mas nisso reside o risco das desilusões. Sigmund Freud teve interesse particular no assunto e descobriu seu tipo preferido de parceira. Ele se sentia atraído por criaturas delicadas, das quais pudesse cuidar. Era um jeito seu. Queria para sua intimidade uma pessoa afável, apesar de ter sido amigo de mulheres imponentes. Mas há homens, ao contrário, que não têm clareza ou coerência sobre qual tipo seria melhor para eles. Apesar de terem aversão a ela, há os que, sem saber, escolhem mulher de personalidade forte, autoritária, como condição para conseguir se apaixonar. Alguns podem curtir, achar estimulante e interessante e se adaptar bem. Mas outros vivem às turras com ela, embora sempre escolham os mesmos tipos difíceis, não se relacionando, por exemplo, com mulheres mais tranqüilas. Carregam dentro de si um conflito com a figura feminina "tenebrosa" e procuram na realidade alguém para contracenar com eles nesse drama. Na verdade, tanto homens quanto mulheres podem sofrer tal impasse: escolhem, a dedo, um amor que seja também coadjuvante na expressão dos conflitos internos. Com ele contracenam - além dos afetos positivos - conflitos e ressentimentos antigos. Isso ocorre, em menor intensidade, em todos os vínculos. Mas, se os pombinhos têm a sorte de serem equilibrados emocionalmente, suas escolhas recairão sobre pessoas que lhes trazem de preferência a felicidade. Quem cresceu, por exemplo, num ambiente humano onde prevaleceu a temperança, provando o bom senso e cercado de afeição singela, tende a não compreender códigos mais confusos e situações turbulentas. Os pombinhos escolhem seu amor de acordo com desejos marcados por sua história e subjetividade. A preferência às vezes recai sobre quem toma conta deles, mantém sua subsistência física e afetiva, dá uma "vida boa". Isso acontece porque a situação evoca o primeiro amor, aquele que era destinado à pessoa que os alimentava. Embora certa cota disso apareça em toda relação - afinal, quem não gosta de uma mordomia? -, nos muito dependentes e fixados na infância o anseio se expressa de tal forma que se torna uma pré-condição: se não for suprido, o feitiço sensual se evapora. Ao contrário da música, o refrão seria: "A gente só quer comida". E "comida" aqui pode ser até carros de luxo e bolsas de grife. Em outras situações, o maestro que rege as escolhas é o amor a si mesmo. Sim, porque Narciso acha feio o que não é espelho, diria Caetano Veloso (65), e pombinhos que não saíram desse estágio só se ligam a pessoas parecidas com eles. Por causa disso, podem até escolher gente do mesmo sexo para se relacionar, embora não seja uma regra que explique tudo. Aliás, explicar tudo não é compatível com o amor - que, no entanto, deveria ter parentesco com a sabedoria.