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Das palavras que freqüentaram o noticiário brasileiro nos últimos meses,...

...duas merecem destaque: furto, do latim furtum, que significa tomar propriedade de outro, e motim, do latim motum, movido, particípio de movere, mover, que também tem o sentido de rebelião.

Deonísio da Silva Publicado em 19/04/2007, às 13h49

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Deonísio da Silva
Deonísio da Silva
Cleptomania: do grego klépto e manía, pelo latim cleptare e mania, em ambas as línguas com os respectivos significados de furtar, roubar, dissimular e mania. É o hábito patológico de subtrair objetos - não confundir com o furto provocado por necessidade, nem com a atividade do pequeno bandido, que comercializa os artigos tomados. A pessoa cleptomaníaca não resiste ao impulso compulsivo de furtar todo tipo de coisas que não são necessárias, nem cobiçadas por seu valor, e não sabe explicar essa perda de controle.Destrinchar: de destrinçar, do latim strictiare, apertar, antecedido do prefixo "des", de negação. Destrinchar é desapertar, afrouxar, separar em partes um problema para resolvê-lo. Quando se refere a um texto, significa interpretar. Pode ter recebido influência de trinchar, do francês trancher, separar em pedaços, como se faz com aves e outros animais assados e servidos inteiros à mesa, necessitando ser cortados em bocados antes de ir para os pratos. Ao lançar no Brasil o livro Situações I, do filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), a editora Cosac Naify, distribuiu texto em que usa muito apropriadamente o verbo destrinchar: "Sartre procura a espinha dorsal de quase todos os textos analisados, tentando descobrir arquiteturas e destrinchar, às vezes como quem desmonta um relógio ou procura desenhar o circuito elétrico de uma casa, os procedimentos que sustentam essa e aquela maneira diferente de fazer ficção e poesia". Furto: do latim furtum, furto, tomar propriedade de outro. Nem todo furto tem origem criminosa, como relatado na obra clássica A Arte de Furtar, atribuída ao missionário português Antônio Vieira (1608-1697). Há quem furte por impulso - causado por cleptomania, como citamos no primeiro verbete desta coluna, ou por consumo excessivo de medicamentos, que podem causar confusão mental e amnésia. Quando cometidos por personalidades públicas, os furtos costumam ganhar enorme repercussão. No mês de março, por exemplo, o rabino Henry Sobel (63), principal representante da comunidade israelita em São Paulo, ficou preso por cerca de 25 horas, na Flórida, Estados Unidos, acusado de furtar gravatas em loja da grife Louis Vuitton. De biografia ilibada, o rabino destacou-se na luta contra a ditadura militar, principalmente quando se recusou a aceitar a versão oficial de suicídio, dada pelas forças da repressão, para a morte do jornalista Vladimir Herzog (1937-1975), ocorrida em seções de tortura, dentro da prisão. Aparentemente, o que levou Sobel ao estranho ato foi o uso de medicamentos. Outros furtos famosos foram os cometidos pela atriz norte-americana Winona Ryder (35), condenada a 480 horas de trabalhos comunitários por levar - sem pagar - roupas de uma loja de Beverly Hills, nos Estados Unidos, e pelo estilista Ronaldo Esper (62), que foi parar na delegacia por subtrair vasos de um cemitério paulistano. Um outro tipo de furto é comum no Brasil e em outros países: o da coisa pública, por meio da corrupção, das fraudes, do peculato, do estelionato, do tráfico de influências, do superfaturamento, do suborno, dos cabides de emprego e do nepotismo. Motim: do latim motum, movido, particípio de movere, mover, tendo também o sentido de agitar, pelo francês mutin, agitado, insubmisso, rebelde. A palavra esteve recentemente na mídia brasileira, quando controladores de vôo do país se rebelaram, depois de sucessivas crises que tumultuaram os aeroportos. O primeiro registro de motim na língua portuguesa deu-se no século XVI, em Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto (1509- 1583): "E com isto se levantou em todo o povo um modo de motim santo, com um fervor tão animoso". No dia 4 de março de 1630, estudantes da Universidade de Coimbra organizaram um motim contra os cristãos-novos, como eram conhecidos os judeus convertidos à força. No dia 29 de abril de 1789, nove dos 42 tripulantes do navio inglês HMS Bounty se amotinaram, aparentemente por causa da crueldade do comandante. Os revoltosos retornaram ao Tahiti, arregimentaram homens e mulheres nativos e rumaram para o Pacífico Sul em busca de esconderijo. O grupo chegou por acaso à ilha de Pitcairn, levado por um erro de 200 milhas nas cartas náuticas inglesas, e, sabendo que sua localização seria difícil, queimou o navio e se estabeleceu ali. Em 1814, fragatas inglesas "redescobriram" a ilha, que já tinha sido encontrada por um navio baleeiro dos Estados Unidos, em 1808. Entre os sobreviventes estavam 11 mulheres e 23 crianças, educadas à luz da Bíblia de bordo do Bounty. O motim inspirou quadros, livros de Júlio Verne (1828-1905) e Mark Twain (1835-1910), e filmes - um estrelado por Clark Gable (1901-1960), em 1935.