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Casamento de jovens pode virar duelo de identidades em formação

Alberto Lima Publicado em 05/04/2007, às 11h50

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Alberto Lima
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Nos 10 ou 15 anos iniciais da vida adulta, a maioria dos jovens enfrenta uma situação complicada: conciliar a fase mais aguda da afirmação de sua identidade pessoal com a construção de uma união amorosa, experiências muitas vezes antagônicas. Para que uma relação vingue, então, é preciso que ambas as partes tenham consciência da delicadeza da situação e respeito pelas diferenças entre si. O período adolescente do desenvolvimento psicológico de uma pessoa é superado à medida que ela faz escolhas: como e onde viver, que profissão abraçar, com quem formar um par. Tais definições costumam ser vividas com algum medo, em razão do comprometimento que trazem e das perdas que acompanham as escolhas, mas também são experimentadas com vigor, uma vez que se vai desenhando com precisão um modo de ser particular. É agradável saberse de posse de uma personalidade que se distingue de outras e que se pode apresentar ao mundo com alegria e segurança. Nessa fase de afirmação pessoal e social, o jovem adulto passa a conjugar um monte de verbos na primeira pessoa: eu gosto disso; eu não gosto daquilo; eu faço, aconteço, decido, escolho. E uma de suas escolhas será a parceria amorosa. Em geral, alguém da mesma faixa etária que vive igual experiência: gosta e não gosta, decide, escolhe. Uma vez juntos, os dois começam a afirmar suas diferenças um aos olhos do outro, em busca de espelhamento e confirmação, o que é natural. O problema é que, ocupado com a afirmação da nitidez pessoal, cada um corre o risco de caprichar nos grifos e ênfases de suas perspectivas, valores e preferências, ficando desatento à necessidade que o outro tem de ser acolhido naquilo que o diferencia. Aí, pode começar o confronto entre dois holofotes. Um diz: "Eu quero ir à praia!" O outro: "É. Mas eu quero ir à montanha." Ambos se sentem orgulhosos por não terem dúvidas sobre o que querem, porém, quando contrariados, se queixam de não serem ouvidos nem considerados. Se o jovem se sente seguro do que quer, não precisa fazer valer seu intento com tanta garra, nem instalar uma competição entre os distintos desejos. Agora, se está inseguro, ele tende a exigir do parceiro total e irrestrita adesão ao seu plano. Seu temor é o de que, uma vez refutada sua proposição, isso ponha em xeque seu valor como pessoa. E esse temor pode levá-lo a acirrar o posicionamento, eliminando a flexibilidade. Afirmar a própria diferença vira uma questão de honra! Se isso acontece com as duas partes do casal, os holofotes se tornam espadas e instalase um verdadeiro duelo, que só desgasta a relação. Numa perspectiva amorosa, os dois holofotes teriam, juntos, de iluminar um só caminho, de preferência satisfatório para ambos, capaz de conciliar os dois desejos, quem sabe inventando um terceiro, que seja comum. Ou, caso isso seja inviável, iluminariam ora o desejo de um, ora o do outro, num movimento sadio de reciprocidade. O amor requer a capacidade de renúncia ou adiamento do próprio desejo, em alguns momentos, em favor de um desejo maior, que é o de ver feliz a pessoa amada, ou de um caminho conciliador. É legítima a necessidade de ser confirmado, mas talvez se deva dispensar o parceiro de se ocupar em demasia com essa função - já que lembra o que os pais fazem pelos filhos - e buscar supri-la em outras relações, quem sabe com pessoas mais velhas, que são mais tranqüilas. No âmbito do casal, o exercício dessa função só terá sucesso se ambos tiverem serenidade e forem capazes de oferecer reciprocidade.