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Calar, quando o desejo seria falar, em geral não é bom para a relação

Alberto Lima Publicado em 22/02/2007, às 14h45

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Alberto Lima
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Deixar barato os incômodos experimentados em relação ao parceiro ou à parceira pode ser nocivo. Mas levantar problemas e formular queixas e críticas a todo momento também podem minar o convívio. O segredo talvez seja encontrar o discernimento necessário para saber o que dizer, quando, em que contexto, com quais palavras, em que tom, com qual finalidade, com senso de justiça e após fazer uma autocrítica. Calar, quando se desejava falar, em geral não é bom. O que eu não digo se diz por mim. Assim, é melhor que eu me responsabilize por esse dizer e o faça com afabilidade, humildade e objetivando a evolução do relacionamento. De nada adianta eu calar sobre o incômodo que senti quando ela desconsiderou meu pedido para jantar se vou deixá-la sozinha em casa e me entreter sozinho. Ela vai perceber o abandono e construir fantasias sobre o que se passa, sem alcançar o real motivo para aquele comportamento. Portanto, o não dito grita mais alto que o dito e dá margem a que sejam ouvidas mensagens que não se quer transmitir, ao passo que a que importa se perde em um pseudo-silêncio. Cabe indagar o que leva uma pessoa a calar: estaria temerosa, caso se expressasse, de ser destrutiva em relação à outra? Parece justo superestimar sua capacidade de aniquilar alguém e subestimar a capacidade que o outro tem de se defender ou de simplesmente acolher o que lhe é dito? Ou será que o queixoso prefere transmitir uma imagem de onipotência ("Eu tudo agüento! Sofro calado para deixar clara minha capacidade de me sacrificar por um grande amor!") e deixar o outro passar por idiota, infantil ou "aquele que não tem jeito"? Quanta presunção! Expressar queixas de forma adequada pode ser um modo de se revelar humildade, no quesito pessoal, e consideração pelo outro, uma vez que incluí-lo em suas vivências é um ato de qualificação e validação para com ele. Um não se coloca como mais nem melhor; o outro não é tratado como menos nem pior. Agora, adotar o oposto, isto é, dar voz a todas as queixas, sem os devidos cuidados, é tiro certo: ou a união não sobreviverá, ou se construirá em bases de poder, não de amor. Longe de promover a superação dos pontos fracos, um descuido nesse quesito pode causar ressentimento, revolta e levar a pessoa a criar mecanismos para se proteger das críticas e da dor que causam: evitar o contato, retardar a chegada em casa, recolher-se - ou, então, desenvolver certa agressividade, acentuar a autoridade, submeter o parceiro ou a parceira a "castigos", como sintomas dos sentimentos experimentados. Noutras palavras, uma abordagem indiscriminada nessa direção é nociva para a união e ainda corrói o coração do criticado e reduz o crítico ao que ele tem de pior: o tirano. Para concluir, uma reflexão: por trás de toda irritação há inveja. Se algo na pessoa que vive com você causa irritação, é bom, antes de se queixar dela ou criticá-la, observar onde a coisa pega. O distraído que você acha que ele é talvez a faça lembrar-se da exaustão que você experimenta por prestar atenção em tudo, o tempo todo, sob tensão. A invasiva que ela lhe parece ser talvez o faça lembrar-se da trabalheira que você tem com seus excessos de cuidado. Reconhecer a inveja poderá fazer com que você admire mais a outra pessoa, além de se olhar no espelho com mais rigor, antes de fazer ataques ao outro. O problema de se pular essa etapa está em que o crítico se investe de ilícita autoridade e submete o outro a seu poder. Quando isso ocorre, o amor já entrou pelo ralo.