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Nos redemoinhos da paixão, não há espaço para a racionalidade

por Nahman Armony* Publicado em 21/09/2010, às 12h27 - Atualizado às 13h51

Nos redemoinhos da paixão, não há espaço para a racionalidade
Nos redemoinhos da paixão, não há espaço para a racionalidade
Ao receber um convite amoroso de um antigo flerte, a doutora Alicia Florrick, mulher casada, personagem da série The Good Wife - Pelo Direito de Recomeçar, do canal Universal, pergunta: "E o plano?" Diante da perplexidade muda do interlocutor, acrescenta: "A poesia está muito bem, mas preciso de um plano. Sou casada, amo meus dois filhos, meu marido precisa de mim para sua campanha de eleição... Onde está o plano?" Desconcertado, o pretendente desliga o telefone. Uma das interpretações da fala da protagonista é esta: ela tem uma vida estruturada e o que aquele homem lhe oferece é inconsistente em termos de segurança - a despeito do grande apelo exercido pela paixão. Pela minha experiência, porém, posso dizer que em geral essa racionalidade pragmática não funciona. As pessoas se atiram na paixão sem pensar nas consequências, tamanha é a força desse acontecimento súbito, comparável a um raio que cai sobre duas pessoas e as eletrifica, unindo-as pelo desejo, pela esperança, pelas fantasias de felicidade e completude. Pensam: "Ele é meu homem (ou ela é minha mulher) e é com ele (ou com ela) que quero misturar minha carne e minha alma, pois é a ele (ou a ela) que pertenço desde o início dos tempos". Parece ser um sentimento imotivado, pois ocorre antes que haja tempo de os dois se conhecerem melhor. Poder-se-ia argumentar que a expressão do rosto e a atitude corporal já falam sobre quem é a pessoa. Isso pode ser verdade no que diz respeito à "poesia" do encontro, ligada à atividade psico-cerebral primitiva, a mesma que rege os encontros amorosos dos animais da natureza, mas que nada diz da personalidade social e ética do parceiro. Só quando a paixão arrefece estes aspectos mais evoluídos ganham importância. Aí, aparecerão as diferenças, que serão elaboradas ou não pelo casal, mantendo-o unido ou separando-o. Como diz a boneca falante Emília, no livro infantil Reforma da Natureza, do escritor paulista Monteiro Lobato (1882-1948), o mundo foi malfeito por Deus. O ideal seria que pudéssemos escolher por quem nos apaixonar após conhecer bem os candidatos, descartando os muito dessemelhantes e optando por aqueles que apresentam diferenças menos radicais. Porém, não é assim que acontece. Temos de nos conformar com o difícil caminho da paixão por um quase desconhecido e batalhar para superar e acolher diferenças por meio da compreensão e da aceitação da sua personalidade. Só assim o arrebatamento poderá durar sob a forma de amor apaixonado. Mas esse final feliz exige esforço de ambos. Antes de tudo, é preciso tolerância. Temos dificuldade de aceitar as diferenças. Quando crianças, amamos o semelhante; o diferente é um inimigo mortal, pois ameaça invadir nossa personalidade ainda imatura e influenciável. A criança precisa evoluir para uma maneira de estar no mundo em que poderá se abrir para as novidades trazidas pelo ambiente, preservando, contudo, seu modo de ser, só permitindo modificações favoráveis ao aumento de potência de sua personalidade. É longo o caminho para se chegar a este modo de ser; essa capacidade só se desenvolve no embate com outras pessoas. E a situação de paixão é privilegiada para a sustentação desse processo.