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Alguns ditos, do latim dictum, populares reforçam preconceitos contra...

... as mulheres. Embora não passem de lero-lero, expressão originada no grego leron, falar, ou no quicongo lelu, boca, que designa conversa inútil, essas afirmações desrespeitosas incomodam, e muito, seus alvos.

Deonísio da Silva Publicado em 28/05/2008, às 18h12

Deonísio da Silva
Deonísio da Silva
Agrocarburante: de agro, alteração do prefixo agri, declinação do latim ager, terreno cultivado, presente em agrícola, agricultor, agricultura; e carburante, de carburar, do francês carburer, depois influenciado pelo inglês carburize, "misturar (os vapores do combustível) com o ar, para uso em motor de explosão", como define o dicionário Houaiss. O substantivo agrocarburante ainda não está nos dicionários, embora apareça com muita freqüência na mídia quando o assunto são os biocombustíveis produzidos a partir da cana-de-açúcar, como o álcool e o etanol, ou o biodiesel da mamona. A palavra foi citada pelo jornal O Estado de S.Paulo em tradução de carta enviada ao Itamaraty pelo suíço Jean Ziegler (74), relator da ONU para o Direito à Alimentação. Ele teria escrito: "O que me parece contrário ao direito do homem à alimentação é queimar em grandes quantidades e transformar em agrocarburantes os alimentos, como fazem os Estados Unidos". A crise da alimentação no mundo - em poucos meses, de fins de 2007 a começos de 2008, muita gente voltou a passar fome - deve-se à guinada radical de transformar alimentos em combustíveis. Famílias ricas destinam apenas 12% de sua renda à alimentação, mas entre as mais pobres este índice pode chegar a 85%, quando não a 100%. O preço do milho, cereal aproveitado pelos Estados Unidos para produzir etanol, subiu 57% num ano; o do arroz, 74%; o da soja, 87%; o do trigo, 130%, de acordo com o citado relator, que se tornou famoso por denunciar seu próprio país como envolvido na lavagem internacional de dinheiro, em A Suíça Lava mais Branco, um de seus livros mais conhecidos. Dito: do latim dictum, dito, expressão, frase, sentença. Os ditos, chamados também, às vezes inadequadamente, provérbios, ditados, aforismos, resumem não apenas a sabedoria popular, mas também os preconceitos. Muitos têm autoria desconhecida, mas de alguns se conhecem os autores. É o caso deste: "Não fumo, não bebo e não cheiro. Só minto um pouco", atribuído ao músico Tim Maia (1942-1998). E também deste: "Um juiz me casou. Eu devia ter pedido um júri", do comediante (1890-1977). O casamento é tema freqüente de ditos populares, como: "O casamento é uma gaiola: quem está dentro, quer sair; quem está fora, quer entrar" e "Não falo com minha esposa há quase um ano porque detesto interrompê-la". Este último exemplo revela preconceitos contra a mulher, o que se constata também na seguinte definição: "Esposa: pessoa amiga que está sempre ao seu lado para ajudá-lo a resolver os grandes problemas que você não teria se fosse solteiro". Pelo reverso, este dito poderia ser criação feminina, se as mulheres fossem tão indelicadas com os homens como muitos deles são com elas, principalmente em ditos, anedotas e piadas. Lero-lero: de origem controversa, provavelmente do grego leron, falar. Tem o significado de conversa vazia, inútil, conversa mole, assim como os sinônimos leréia, léria, papo-furado, conversa fiada. Os gregos certamente jogavam conversa fora, mas o compositor e escritor carioca Nei Lopes (66) diz que lero-lero veio do quicongo lelu, boca. O quicongo é a língua dos povos africanos conhecidos como congos, palavra presente no nome da República Democrática do Congo, ex-Congo Belga, chamado também Zaire, que vem do nome do Rio Congo em quicongo, Nzadi, rio grande, que engole todos os outros. O nome do rio deve-se também à etimologia: em quicongo, congo é tributo. Nesse rio os súditos pagavam seus tributos e impostos aos antigos reis. É, aliás, também o caso de Luanda, capital de Angola. Em quimbundo, luanda significa tributo. O ator Rogério Cardoso (1937-2003) tornou célebre o personagem Rolando Lero, da Escolinha do Professor Raimundo, programa de TV criado e apresentado por Chico Anysio (77) e grande elenco por muitos anos. Papo-furado: de papo, masculino de papa, comida, do latim pappare, comer, aplicado pelos antigos romanos à fala do escravo novo, que pronunciava mal o latim, comendo as palavras; e furado, de furar, do latim furere, estar doido, cujo radical está presente também em furor, furioso. Pappus, em latim, designa ainda o ancião, o avô, aquele que fala muito, às vezes sem nexo, como quando caduco, empregando-se ainda às plantas com caules cobertos de penugem, como o velho, de barbas brancas. A expressão papo-furado pode ter nascido da observação do modo de algumas aves comerem: antes de levar o alimento à moela, deixam-no depositado no papo, dilatação do esôfago. Se o papo está furado, o alimento, como a conversa fiada, de nada servirá.