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Etimologia

Por Deonísio da Silva Publicado em 12/07/2011, às 15h31 - Atualizado às 15h32

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Aldrava: do árabe ad-dabba, tranca, ferrolho, pequena peça de metal afixada do lado de fora da porta. O visitante bate a aldrava para chamar quem está dentro de casa. É comum a grafia alternativa aldraba. Também as pequenas trancas para manter as janelas abertas são chamadas aldravas. Recebe tal denominação, ainda, a tranqueta com que se fecha a cana do leme, peça que atualmente é encontrável apenas em pequenas embarcações.

Macambúzio: do nhungue makambuzi, pastor de cabras. Nhungue designa povo banto que habita Moçambique, especialmente a região de Tete. Do mesmo étimo é mukumbuso, memória, lembrança. Macambúzio significa triste, taciturno, acabrunhado. Imbuzi em nhungue é bode. É mais ou menos equivalente a “pensando, morreu um burro”. O pastor fica pensando nas cabras, isolado na campina.

Quilombola: de quilombo, do quimbundo kilombo, povoação, acampamento, arraial, mas também exército, capital, união, mesclado a kuombolola, surrupiar, levar escondido. Veio a designar o escravo que, fugindo dos maus-tratos dos senhores, refugiava-se nos quilombos e ali passava a viver com decência, em sociedade regida pelos próprios negros. O maior refúgio de quilombolas estava no Quilombo dos Palmares, assim chamado porque estava localizado numa vasta região coberta por palmeiras, em territórios hoje pertencentes ao Estado de Alagoas. Iniciado no século XVI, chegou a contar em 1670 com 20000 pessoas, que sobreviviam da caça, da pesca, da coleta de frutas e da agricultura. Sua estrutura de poder era análoga à dos reinos africanos, com reis, príncipes e oligarcas. Suas duas lideranças mais famosas foram Ganga Zumba (?-1678) e seu sobrinho Zumbi (1655-1695). Como os engenhos de açúcar enfrentassem crise de mão-de-obra, sobretudo após a expulsão dos holandeses, os quilombos foram atacados para a recaptura dos escravos. Contra Palmares foram feitas muitas expedições militares. Ganga Zumba suicidou-se e Ganga Zona (século XVIII) subiu ao trono e foi sucedido por Zumbi.

Senzala: do quimbundo sanzala, lugar de habitação da família. Seu outro significado, bracelete que as iaôs usam após a iniciação, veio do quicongo senzala, juramento; ou de sansala, bêbado, trôpego, titubeante, hesitante (em alusão ao estado da iaô recém-iniciada), como ensina Nei Lopes (68) no Dicionário Banto do Brasil. Talvez por mescla dos dois sentidos, pois os escravos bebiam cachaça para aliviar o sofrimento, desde os primeiros séculos designa alojamento dos escravos. Os escravos domésticos, homens e mulheres, juntamente com as crianças, habitavam as senzalas instaladas nos porões das residências. Essas construções aparecem mais bem conservadas nas fazendas de café situadas em territórios hoje pertencentes aos municípios de Vassouras e de Valença, no Estado do Rio de Janeiro, e abertas à visitação pública, que inclui preciosas aulas de história do Brasil ministradas pelos guias, em geral os proprietários atuais, que as adquiriram ou herdaram daqueles que as arremataram em leilões executados pelos bancos credores, uma vez que a maioria delas faliu após a Abolição, no século XIX, ou mais tarde, na crise dos anos 30 do século XX.

Tunda: do quicongo tunda, pelar, descascar, correspondente ao umbundo tuna, malhar, confundir. Passou a designar surra e também crítica. Daí a expressão “ele desceu o pau”, “descascou”, indicando comentário adverso. As senzalas semelhavam galpões rústicos, com pouca ventilação e grades nas janelas. Pareciam prisões e à frente delas estava o tronco, onde os adultos recebiam tundas e outros castigos.

Valongo: talvez do nome de diversas vilas portuguesas, passou a designar o lugar onde os escravos eram vendidos. Na Avenida Barão de Tefé, no Rio de Janeiro, foram encontrados recentemente, nas escavações de drenagem portuária, vestígios do maior porto de chegada de escravos do mundo, o Cais de Valongo, onde desembarcaram mais de 1 milhão de pessoas. Localizado logo abaixo do Cais da Imperatriz, foi construído depois que a princesa Teresa Cristina (1822-1889), esposa de dom Pedro II (1825-1891), chegou ao Brasil. Ali foram encontrados diversos objetos usados pelos escravos no século XIX, como botões de ossos de boi, cachimbos de cerâmica e búzios.