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Etimologia

por <b>Deonísio da Silva</b>* Publicado em 03/12/2009, às 12h09

Deonísio da Silva
Deonísio da Silva
Acotovelar: de cotovelo, palavra de origem controversa, vinda do moçárabe qubtál, dito também qutubálu, cotovelo, ou talvez do latim cubital, almofada em que se firma o cubitus, cotovelo, que designava no latim não apenas a conexão do braço com o antebraço, mas também a extensão de um côvado, correspondente a 3 palmos, ou 66 centímetros. Acotovelar-se é apoiar-se nos cotovelos ou usá-los para abrir espaço em aglomerações. Em Stefan Zweig no País do Futuro: a Biografia de um Livro (Fundação Biblioteca Nacional, edição bilíngue), organização e texto do jornalista e escritor brasileiro Alberto Dines (77), em português, e de Kristina Michahelles, em alemão, este verbo designa os tormentos vividos nas embaixadas durante a II Guerra Mundial: "No momento em que milhares de refugiados europeus acotovelam-se, fazem fila, imploram aos funcionários brasileiros algum tipo de ajuda para entrar no Brasil, Stefan e Lotte convertem rapidamente os seus vistos de turista em autorização definitiva". Duvidada: do particípio feminino de duvidar, do latim dubitare, pôr em dúvida, tornar dúbio ou dúbia, do latim dubius e dubia, respectivamente, um juízo ou uma afirmação, como nesta abertura do Sermão de São José, pregado na Capela Real, em Lisboa, em 16 de março de 1642, aniversário do rei dom João IV (1604-1656), a quem são atribuídas virtudes semelhantes às do santo nesta belíssima obra do padre Antônio Vieira (1608-1697): "Questão mui duvidada entre os Antigos, qual dia desta vida se o último; se o do nascimento, se o da morte". Acrescenta que "chegou finalmente a dúvida ao tribunal de el-rei Salomão, o qual inclinando-se à parte que parecia menos provável, resolveu que melhor é o dia da morte, que o dia do nascimento". O famoso pregador, confiando em sua memória prodigiosa, citou Eclesiastes 7, 2, mas a afirmação está no versículo 1 do mesmo livro bíblico. Em Eclesiastes 7,2 lemos outra coisa: "É melhor ir a uma casa que está em luto do que a uma que está em festa, porque aquele é o fim de todo homem e os vivos refletem". Eclesiástico: do grego ekklesiastikós, pelo latim ecclesiasticus, eclesiástico. Pode ser substantivo, designando sacerdote ou membro do clero, ou adjetivo, qualificando veste, arquivo, ordem, livro. A Bíblia tem dois livros com nomes radicados no mesmo étimo: o Eclesiastes, do grego Ecclesiastes, adaptação do hebraico Coelet, particípio feminino do verbo cahal, reunir, convocar; e o Eclesiástico, escrito por Jesus, filho de Sirac (século IV a.C.), como ele mesmo se intitula, e traduzido do hebraico para o grego pelo próprio neto do autor no século II a.C. Ekklesiastes era na Grécia antiga aquele que falava na ekklesia, assembleia, origem da palavra igreja. No português vulgar passou-se a dizer "ecrésia", depois "egreja", "ingreja" e por fim "igreja", forma consolidada na fala e na escrita. Intimidar: do latim medieval intimidare, intimidar, temer, ter medo, conexo com timidus, tímido, medroso. Aparece neste trecho de Contos Novos, do escritor brasileiro Mário de Andrade (1893-1945): "O guarda, vendo que os operários não se intimidavam com a presença dele, resolveu fazer uma demonstração de autoridade". Mula sem cabeça: do latim mula, mula, feminino de mulus, mulo; de sine, sem; e do latim vulgar capitia, plural de capitium, capuz que cobre a caput, cabeça, no latim clássico. Acertadamente, o escritor Dalton Trevisan (84) e a editora L&PM, no conto Amor, de Duzentos Ladrões, contrariam o Acordo Ortográfico e grafam com hífens a conhecida figura do folclore brasileiro: "O amor é a Mula-sem-Cabeça que ronda a tua porta e te chama pelo nome. Bicho-Papão que devora, sem mastigar, teu pequeno coração palpitante". O Acordo manteve o hífen em bicho-papão. Tripeiro: de tripa, mais o sufixo "eiro", redução de estripar, do latim exstirpare, extirpar, arrancar, vale dizer, tirar as vísceras de um animal. Passou a sinônimo de bucheiro, aquele que vende ou come tripas. Ou ainda, como informa o Dicionário Houaiss, "bucheiro: indivíduo que não escolhe o que come e usa a comida como pretexto para beber". Tripeiro designou desde o século XV o habitante do Porto, Portugal, porque seus moradores deram à Coroa a carne que tinham para alimentar os soldados que foram lutar em Ceuta, na África, e passaram a comer pratos feitos de tripas de animais, como está informado também em O Viajante: Memórias, Autobiografia (Sorocaba, Ed. do Autor, 2008), de Carlos Quintas Graça (70), delicioso livro de lembranças: "Aí chegavam até mim informações - certas, claro! - de angustiantes casos de espíritos visitantes dos humanos naquelas terras da Beira e do Alentejo, de sessões aterrorizantes de bruxas e seus coadjuvantes, que passavam a povoar meus sonhos de menino assustado, lençol puxado cobrindo a cabeça".