Por: por Nahman Armony*

Uma das armadilhas prediletas do amor é a exigência de dedicação incondicional do parceiro. De início, a vítima tenta resistir, manifestando seus desejos, discutindo, fazendo acordos. Mas se o outro é uma pessoa ardilosa, que exibe sofrimento diante das frustrações causadas pelos atos afirmativos do parceiro, este acaba cedendo, desistindo de seus valores e de sua postura independente. Em nome do amor, torna-se servo. E, quando a mudança se instala, parte do que era atraente nele - a força de sua personalidade, a diferença, o desafio, a incerteza - desaparece. Uma imagem exprime bem a situação: chupar a fruta até tirar dela todos os elementos nutritivos e então cuspir o bagaço.

A dobradinha admiração/aprovação faz parte da composição amorosa. A pessoa se sente valorizada quando é amada por alguém que admira e a aprovação dessa pessoa se torna um elemento importante no equilíbrio da relação. Os conflitos muitas vezes surgem do sentimento de que um não está sendo devidamente apreciado pelo outro e são resolvidos por acordo entre iguais. Se o parceiro não tem vontade própria, se concorda com tudo que o outro deseja, desaparece como pessoa e não pode mais ser admirado. Sua aprovação ou desaprovação deixa de ser relevante: já não serve para a auto-estima, para o orgulho de ter um parceiro altivo; já não é um parceiro de luta, pois sua personalidade e força sumiram. Onde deveria haver dois a enfrentar o mundo sobra apenas um com sua rabeira: uma sombra sem força de realização.

É uma situação paradoxal: deseja-se uma pessoa forte mas se tem medo de que essa força atraia outros, provocando abandono. Faz-se então um esforço para dominá-lo até que ele se torne uma criatura fraca, indigna do amor e incapaz de realizar uma parceria produtiva. Isso nos leva a pensar que em certo número de casos a insegurança é um dos componentes que mantêm o amor.

Essas considerações se baseiam em um caso que ocorreu em minha clínica. Um rapaz de início tímido havia se tornado auto-afirmativo, adquirindo charme e densidade, usando sua inteligência para estabelecer relações. Tinha romances que duravam algum tempo e, ao terminarem, causavam um sofrimento que não chegava a atrapalhar sua vida. A auto-estima e o garbo se mantinham. Até que, ao se apaixonar por uma mulher que considerava especial, passou a ter um medo excessivo de perdê-la, como se não a merecesse.

Diferentemente das situações anteriores, em que se sentia em plano de igualdade ou mesmo de superioridade, pôs-se em situação de inferioridade e passou a atender às solicitações da namorada mesmo se contrariavam seus sentimentos e princípios. Logo perdeu a individualidade e, com isso, o charme e a essência. Deixou de existir como pessoa e foi descartado, ficando em um estado de extremo sofrimento e desvalorização. Sua autoestima desapareceu e demorou para começar a recuperar sua identidade e sua potência.

O amor exige concessões de parte a parte. Mas certos princípios e sentimentos básicos pessoais não podem ser abandonados, sob pena de um desenvolvimento desfavorável da relação e, pior, de uma transformação de um ser humano consistente em uma inconsistência perigosa para o próprio viver.

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Comentários:

  • 22/01/2009 - simone parente

    TEMA INTERESSANTE

  • 27/01/2009 - Ni

    Muito esclarecedor, é muito bom aprendermos a dar nome a nossos sentimentos.Como meu pai sempre dizia "as pessoas só fazem com a gente o que permitimos que elas façam. Adorei.

  • 27/01/2009 - Ana

    Acabo de passar por isso. Eu era uma pessoa forte e determinada e foi isso q atraiu o meu ex. Só que, com o tempo, ele demonstrou ser uma pessoa egoísta e insegura, e quando percebi já estava fazendo coisas q não queria só pra não desapontá-lo. Deixei minha vida de lado, cedendo cada vez mais às suas chantagens. Por fim, quando eu decidi terminar o relacionamento, ele me disse que tb queria, pois eu não era mais aquela mulher forte de antes... Parece brincadeira, mas aconteceu. Depois q terminamos ele ficou com uma pessoa q se dizia minha amiga... Ai ai, pelo menos aprendi a me amar mais e a não permitir esses abusos. Na verdade ele me fez um enorme favor em sair da minha vida.

  • 27/01/2009 - tamires monteiro

    Amei a materia... Ja passei por uma situacao parecida e sei bem como e frustante... Acho mt legal esse tipo de materia,pois nos da dicas a ficarmos atentos.. Por que muitas pessoas devem estar passando por isso nessa momento,e quando vivido a pessoal acaba por nao perceber,e pode ate adoecer pelo fato de se anular..... Muito bom msmo Parabens ao autor ..

  • 28/01/2009 - Amanda

    Eu apreciei muito a materia, fala o que a maioria das pessoas fazem hoje em dia, se dedicam demais aos seus parceiros e esquecem de seus principios, tanto homens quanto mulheres. Eu namoro ha um pouco mais de um ano e tomo toda cautela para nao me dedicar totalmente a ele e ser posteriormente sua escrava.

  • 28/02/2009 - Tânia

    Assim como outros ai em cima, vivi isso também. A pessoa me admirava e depois, usando do amor que eu tinha, me tormou uma pessoa limitada, submissa. Sugou os nutrientes e cuspiu o bagaço...começou a me desprezar. Não terminou mas era pior que isso. Percebi e retomei minha postura..ai ela me deixou porq não suportava a minha força, meu carisma, as pessoas me assediarem...ou seja, mais do que o escrito, é INVIÁVEL um relacionamento com essas pessoas. Não existe um ponto de equilíbrio. Não suportam sua força, e não conseguem "te amar" sem ela..

  • 28/06/2009 - tatiana

    é isso ai lute enquanto é tempo

  • 04/11/2009 - mai

    oi, mai! achei aquele texto de que vc tinha me falado, achei bem legal, fiquei pensando numas coisas laaa da minha infancia ate... :) ai achei esse aqui, veja o que vc acha! beijos mica