Leonardo Vieira: "Nunca me senti saindo do armário"

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Por Roberta Escansette

Leonardo Vieira: "Nunca me senti saindo do armário"

Ele assume as suas complexidades

Três meses após falar pela primeira vez abertamente em público sobre sua sexualidade, Leonardo Vieira (48) vai além na Ilha de CARAS ao admitir que as relações são complexas, independentemente do gênero. “Não estou fechado a namorar meninas. A última que tive foi aos 30 anos. Me apaixonei por ela no palco, ficamos juntos seis meses e terminou porque era possessiva. Não aguentei. Só por isso”, relata ele, solteiro, sem revelar a identidade da moça. O ator, que alçou a fama como galã na novela da Globo Renascer, de 1993, diz que passa por um momento de renascimento. E que as ‘amarras’ do passado foram finalmente arrancadas. “Me posicionei e estou acordando diferente, com mais disposição. Me sinto mais à vontade para encarar o mundo. Posso ser integralmente eu porque o meu caráter continua. Mesmo se não me chamarem mais para trabalhar, valeu a pena. É realmente libertador”, sentencia.

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– Você carregou alguma ‘culpa’ por ser gay?

– Nunca me senti saindo do armário. Sempre vivi.

– Houve muito apoio nas redes sociais. Mas sentiu algum tipo de preconceito ou homofobia?

– Recebi uma ameaça no e-mail. Não tive coragem de abrir. Tenho lido mais mensagens no Instagram. E são muito positivas: agradecimentos, falam da minha coragem e força. Poucos me mandam coisas negativas. Me seguro nessas pessoas. Tinha medo disso interferir na minha vitalidade, no meu desejo de seguir em frente.

– Quando percebeu que gosta de meninos?

– Muito jovem. Acho que com 14 anos comecei a falar ‘putz, tem alguma coisa estranha’. Por que fico olhando para os rapazes? Me incomodava um pouco na época. Isso sai fora do padrão social. Meu irmão, que é um pouco mais velho, já tinha namorada. Lutei um pouco contra. Até que vi que não dava mais para relutar e comecei a abrir as possibilidades. Foi difícil em casa. Isso pira a cabeça de muita criança.

– E quer ter filhos?

– Que eu saiba, ainda não tenho. (risos) Adoraria ser pai.

– Daria o mesmo tipo de educação que recebeu?

– Jamais criticaria os meus pais. Eles foram maravilhosos comigo. Fizeram o melhor. Sou grato à educação que me deram, pelo homem que sou, pela minha honestidade. Foi difícil para eles. Dentro de um padrão, tiveram que se virar, me entender e acabaram aceitando. Eu criaria o meu filho de uma forma diferente. Com mais liberdade, tentando não valorizar essa questão do gênero. Se a criança quisesse usar Maria Chiquinha, deixaria. Isso não define a orientação sexual. Tenho certeza disso.

– Sente-se livre dos padrões?

– Em relação à sexualidade, sim. A gente vive dentro de regras e são saudáveis. Nossos pais ensinam a respeitar o coleguinha, a professora. Pelo menos deveria ser assim. Fui educado dessa forma.

– Então, se considera careta?

– Sim, sou bastante. Sexualidade é o que a gente faz dentro de quatro paredes. E isso só diz respeito a quem está ali. Em que mais sou careta? Não curto drogas, me permito beber socialmente. Sou rígido com horário e com meus parentes. Mas não concordo que um núcleo familiar seja formado somente por um homem, uma mulher e criança. Pode ser de uma mãe solteira, por exemplo. É preciso ter amor, sentimento e acolhimento. A minha caretice é comigo mesmo.

– Será que ainda consegue um papel de galã?

– Não sei. Espero que sim. Fiz um homofóbico no teatro, na peça Nove em Ponto, existe a possibilidade de fazermos algumas viagens, e o público adorou. Por que o cara que é hetero e faz um gay é ovacionado nacionalmente mas, o contrário, não pode, causa estranheza? Ficam aí vários questionamentos. O que aconteceu foi muito bacana porque abriu várias discussões. Por que homofobia não é crime? Quero que vire lei. Tudo que vai contra a dignidade humana tem que ser questionado.

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Notícia publicada Qua, 5 abr 2017 as 10:04, por Roberta Escansette.






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